Governo exige esclarecimentos após tragédia de Pedrógão Grande

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O Governo começa a exigir explicações para o que aconteceu na região centro de Portugal. O secretário de Estado da Administração Interna revelou esta segunda-feira na RTP que o primeiro-ministro já publicou um despacho nesse sentido.

No programa Prós e Contras dedicado à tragédia deste fim de semana, Jorge Gomes explicou que “o senhor ministro fez hoje um despacho em que exige esclarecimentos ao IPMA para saber as condições atmosféricas e climáticas naquele dia”.

“Em segundo lugar, o senhor primeiro-ministro pôs como exigência saber se houve falha de comunicações do sistema do Estado, que é o sistema SIRESP”, continuou. Por fim, explicou o governante, o Executivo quer esclarecimentos sobre “o encerramento ou não encerramento da estrada nacional onde se deu o fatídico caso”.


Jorge Gomes garantiu que “este Governo não está à espera que passe o tempo para depois ficarmos com a culpa a morrer solteira”. O secretário de Estado exemplificou o trabalho do Governo com as reuniões de António Costa em Pedrógão Grande com vários ministros.

“Nós não podemos chegar ao fim deste tipo de acontecimentos e irmos iniciar todo um processo. Não, o senhor primeiro-ministro deslocou-se com vários ministros, fizeram uma reunião de trabalho e decidiram e determinaram já alguns procedimentos”, garantiu.

Também no Prós e Contras, o presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera explicou que o IPMA emitiu avisos vermelhos na sexta-feira.

Jorge Miguel Miranda sublinhou no entanto que “nós não sabemos aquilo que ninguém pode saber. A melhor técnica e a melhor ciência não resolvem todos os problemas como nós gostávamos que resolvesse”, explicou.

O comandante operacional da Proteção Civil explicou que a instituição estava avisada para condições climatéricas adversas, uma vez que a troca de informações com o IPMA é feita diariamente.

“Na quarta-feira, o IPMA já nos alertava para condições meteorológicas adversas. Tanto é que na sexta-feira, a partir das 8h00 para sexta, sábado e domingo, tínhamos lançado um alerta amarelo, um alerta especial, para o sistema nacional de Proteção Civil”, explicou Rui Esteves.

O comandante operacional anotou ainda que o alerta era válido para todo o país, uma vez que “não é possível prever exatamente onde vão acontecer estas trovoadas secas”.

Conjugação "pouco habitual"
Numa conferência de imprensa que decorreu durante a tarde de segunda-feira, o IPMA tinha indicado que o incêndio resultara de uma conjugação “pouco habitual” de fatores e “grande imponderabilidade”.

Temperatura muito elevada, baixa humidade, ausência de chuva, descargas elétricas associadas a trovoada seca, mudança de direção de vento muito rápida e reduzida água no solo foram os fatores enumerados.

O presidente do IPMA, Jorge Miguel Miranda, disse que se tratou de "uma conjugação de fatores adversos" e "pouco habitual", realçando a "impossibilidade técnica e a grande imponderabilidade" de prever um incêndio de tais proporções "naquele sítio, àquela hora".

Jorge Miranda admitiu que a "área desestruturada" do local em que deflagrou o fogo, com "uma mistura arbórea que não é favorável" facilitou a propagação das chamas.

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera esclareceu que foram registadas descargas elétricas na região Centro, no sábado, coincidindo com o início do incêndio, mas o sistema de deteção remota do IPMA, com sensores instalados em Braga, Castelo Branco, Olhão e Lisboa, não permite identificar a localização exata das emissões das descargas.

O sistema "não é cem por cento fiável", apenas conseguindo prever a emissão de descargas elétricas "em alguns distritos do continente", reconheceu Nuno Moreira, dirigente da Divisão de Previsão Meteorológica, Vigilância e Serviços Espaciais, acrescentando que "há muitas incertezas na previsão de trovoadas" em termos dos sítios onde vão ocorrer.

Nuno Moreira recordou que o aviso meteorológico emitido previa apenas a possibilidade de ocorrência de trovoadas em alguns distritos.
Trovoadas secas
O IPMA estima que as descargas elétricas associadas a trovoadas secas - trovoadas que provocam relâmpagos, mas em que a chuva evapora-se antes de chegar ao solo - possam continuar hoje na região Centro e junto à fronteira espanhola.

Nuno Moreira assinalou, ainda, que o aviso de risco elevado de incêndio emitido para o fim-de-semana passado não abrangia o distrito de Leiria, ao qual pertence Pedrógão Grande e os concelhos vizinhos de Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, por onde as chamas se expandiram.

No sábado, precisou, a humidade rondava os 10 a 20 por cento e, nalguns sítios do território continental, a temperatura superou máximos históricos para o mês de junho, com a mínima a atingir nalguns pontos os 26ºC.

O presidente do IPMA, Jorge Miguel Miranda, avisou que "o clima está em mudança" e que as pessoas têm de se "adaptar a essa mudança" e apelou a uma "cultura resiliência".

"Temos de nos preparar para uma catástrofe natural", vincou, referindo que "o trabalho de casa" para minimizar o impacto de fenómenos meteorológicos, que "vão aumentar no futuro", tem de ser feito com "um esforço legislativo, financeiro, social, político", envolvendo todos, desde famílias a Governo.
64 mortos
O fogo, que deflagrou às 13h43 de sábado, em Escalos Fundeiros, concelho de Pedrógão Grande, alastrou depois aos concelhos vizinhos de Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, no distrito de Leiria, e entrou também no distrito de Castelo Branco, pelo concelho da Sertã.

Os números avançados ao início da noite de segunda-feira indicam que 64 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas. Há ainda dezenas de deslocados, estando por calcular o número de casas e viaturas destruídas.

Pelas 22h00, para além do incêndio de Pedrógão Grande, havia cinco grandes fogos nos distritos de Leiria, Coimbra e Castelo Branco que mobilizam 2.100 operacionais, auxiliados por 719 viaturas.

c/ Lusa

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