Quarta, 23 de Abril de 2014
Pesquisa na RTP Açores - Informação e Desporto

Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2014-03-19 00:55:08

Crónicas Americanas - Nuno A.Vieira

Crónicas Americanas -Nuno A.Vieira

Crónicas Americanas
Nuno A.Vieira

Mão avisada, de amigo fiel, salvaguardou papéis que, em princípio, poderiam ter acabado na lixeira. Trata-se de uma série de crónicas, de Eduardo Mayone Dias, na sua maioria publicadas no jornal californiano – Diário Popular – e que, inicialmente, foram editadas em dois livros: Crónicas das Américas (1981) e Novas Crónicas das Américas (1986). Já no presente ano de 2014, essas duas obras, com a actualidade e frescura originais, foram compiladas e publicadas num só volume - Crónicas Americanas – na colecção Rio Atlântico, edição da Opera Omnia e com o apoio da FLAD.

O Dr. Eduardo Mayone Dias nasceu em Lisboa, licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa e doutorou-se em Literatura Hispânica pela University of Southern California. Tanto na Europa como nos Estados Unidos, leccionou em diferentes instituições de ensino; a partir de 1964, foi professor de Língua e Literatura Portuguesa na University of California, Los Angeles (UCLA) até à data em que se reformou.

O professor Mayone Dias tem uma produção literária cujos títulos são expressivos da temática a que se dedicou – Crónicas das Américas, Açorianos na Califórnia, Coisas da Lusalândia, Novas Crónicas das Américas, Falares Emigreses, Língua e Cultura (co-autor), Crónicas da Diáspora, e Miscelânea LUSAlandesa, A presença Portuguesa na Califórnia. Além dessas obras, publicou centenas de artigos e crónicas, em diversas revistas e jornais, versando aspectos das literaturas e culturas hispânicas.

A seguir, passarei a parafrasear um ilustre aluno do Professor Mayone Dias, também ele catedrático e escritor, o Dr. Francisco Cota Fagundes, onde em introdução a Crónicas Americanas, traça um perfil do homem, do professor e do escritor que foi Eduardo Mayone Dias. - Como homem, Mayone Dias foi um mentor, um amigo amável, atencioso, sociável, generoso, compreensivo, tolerante e modesto. Como docente, era amante e conhecedor profundo da sua bem-amada língua portuguesa. Foi, para mim, uma fonte de inspiração; soube ensinar o aluno a ensinar-se em vez de o submergir em informação que ele ou ela poderiam adquirir por si próprios na biblioteca. Tinha um invejável sentido de humor que, por vezes, emergia duma simples manipulação da linguagem.Como escritor, interessou-se pela evolução da língua portuguesa em contacto com o inglês (Falares Emigreses).- Na qualidade de filólogo e pedagogo de línguas, foi co-autor de Portugal: Língua e Cultura e, mais tarde, de Língua e Cultura e Brasil: Língua e Cultura. Sendo ele emigrante, dedicou-se à investigação do fenómeno emigratório.

A um nível mais pessoal, convivia com as comunidades portuguesas a quem dispensou uma amizade genuína e que, por sua vez, o acolhiam com estima e consideração. Bastava-se a si próprio, isentando-se dos títulos de doutor e professor. Foi uma presença constante em congressos, apresentando trabalhos literários. Francisco Fagundes identifica a diáspora como experiência observada e a diáspora como experiência vivida como o principal dos denominadores comuns nos vários tipos de crónica de Mayone Dias. O professor Fagundes enquadra as seguintes rubricas no corpus cronístico de Mayone Dias: a crónica histórica, a crónica de lugares (designação à que agora gostaria de acrescentar e crónicas de viagens), a crónica etnográfica, a crónica–retrato ou álbum; a crónica memorialista.

No New York Times Bestseller, The Geography of Bliss (A Geografia da Felicidade), Eric Weiner viaja por diferentes países no intuito de localizar a felicidade. Em Crónicas Americanas, Mayone Dias parece encontrá-la em cada esquina, desde as Ilhas de San Blas, em contacto com a cultura dos índios Kuna até ao Rio, em contacto com os cariocas. A manhã do seu primeiro dia no Rio tem o mesmo entusiasmo de todas as outras manhãs em que Mayone Dias se levanta para ver, observar, conhecer, explorar e contactar outras terras, outros povos, usos e costumes. Nas suas próprias palavras: Acordara cedo, excitado pela perspectiva de conhecer aquela cidade que por tantos anos para mim fora só sonho.

Em Crónicas Americanas, Mayone Dias viaja nos Estados Unidos, principalmente na costa da Califórnia. Vive no México. Visita Cuba e Jamaica. Vai a Cartagena de Índias. Passa um fim-de-semana em Lima. Anda à toa no Rio [sic]. Em Toronto e Newark, encontra ruas portuguesas, onde não se ouve uma sílaba em inglês, respectivamente a Ferry Street e a Rua Augusta.

Num primeiro contacto com a América, Mayone Dias começa por decifrar a linguagem das estatísticas nas mais diversas situações. Democratiza-se aos poucos com a informalidade do tu-para-cá-e-tu-para-lá, com o tratamento pelo primeiro nome e com a irreverência para com as autoridades políticas. Observa a vida no campus universitário, os programas universitários e as actividades extra-escolares, assim como o ambiente numa sala de aula e a relação cordial do aluno com o professor. Mais chocante foi o streaking, praticado sobretudo nas universidades, onde estudantes se lançavam numa corrida rápida, justamente com o toillete com que vieram a este mundo.

A devida altura, Mayone Dias apercebe-se da coexistência de dois tipos de americanos: o da imaginação europeia e o generoso, um pouco ingénuo e idealista às vezes, mas com sentido pragmático da fraternidade e da hospitalidade aberta e efusão instantânea que encontra expressão em linguagem corrente – Thank you! Dear! Honey! Have a nice day! E ainda em sorrisos. Não poderá esquecer a amabilidade dos seus vizinhos novos que lhe adocicaram a boca e a alma com um bolo onde se lia a palavra Welcome.

Num país diferente, há a cartilha dos feriados com uma nova História, outras tradições e celebrações. A América deslumbrante aparece nos exotismos de Hollywood Boulevard, no mundo fantástico da Disneylandia e na incrível cidade de Las Vegas, onde o jogo e o amor se conjugam.

A convivência, lado a lado, de diferentes etnias em relativa harmonia, é outra surpresa. Veja-se Los Angeles com os bairros judeus, coreanos, japoneses, chineses, mexicanos, negros e de uma classe privilegiada que são os artistas. – Essa talvez seja a América de um povo híbrido e contraditório de que fala Miguel Barbosa no prólogo de Crónicas Americanas. De maior perplexidade é o receber notícias da mãe pátria à distância, como por exemplo a notícia inesperada da revolução do 25 de Abril.

O trabalho de Mayone Dias não passou desapercebido ao governo português. Na badana da capa do livro Crónicas Americanas lê-se o seguinte em referência a Eduardo Mayone Dias: Pela sua obra e importante divulgação da língua e cultura portuguesa recebeu o grau de Comendador e Grande Oficial de Ordem do Infante D. Henrique e a Medalha de valor e Mérito da Secretaria de Estado da Emigração, do governo de Portugal. Nos Estados Unidos foi alvo de várias homenagens e condecorações.

Uma citação feita na contracapa de Crónicas Americanas é significativa da visão, índole e acção de Eduardo Mayone Dias. O seu vizinho Freddie, indignado com a existência de uma cerca imposta por disposições camarárias entre a sua casa e a de Mayone Dias, largou a dissertar sobre o mundo por que ansiava, mundo onde não houvesse cercas, onde Deus estivesse em toda a parte, onde todos fossem como irmãos tolerantes e caritativos.

Crónicas Americanas, pela sua observação crítica, ajustada e englobante, poderá ser o primeiro Manual de Informação para quem emigre para os Estados Unidos e um bom guia turístico para todos aqueles que pretendam pisar as muitas terras por onde passou Eduardo Mayone Dias. É ainda memorabília preciosa para quem seguiu trilhos semelhantes.


por : Lélia Pereira Nunes
Tags : E.U.A.,Brasil,Portugal,Açores

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2014-03-01 15:43:18

Eugénio Lisboa – mais vívidas memórias Onésimo Teotónio Almeida

Eugénio Lisboa – mais vívidas memóriasOnésimo Teotónio Almeida

Eugénio Lisboa – mais vívidas memórias


Voltei a ser apanhado pela leitura do novo volume de Fabula Acta Est, o III das memórias laurentinas de Eugénio Lisboa (repito aqui para os mais novos uma explicação que já dei na minha recensão ao primeiro volume: ‘laurentinas’ é um arcaísmo. Lourenço Marques era o antigo nome de Maputo. Eugénio Lisboa nasceu em Lourenço Marques e não em Maputo, daí que faça perfeito sentido indicar aquele nome como o da sua cidade natal. Uma questão de rigor cronológico. E de coerência também).
Depois daquela primeira magnífica viagem pela Lourenço Marques da sua infância e adolescência, Eugénio Lisboa optou por saltar para os anos de 1955 a 1976 e, sem quebrar o intenso ritmo a que submete o leitor, leva-o aos anos de maturação política, dele e da sua geração, num Moçambique prestes a desligar-se do império para fazer a sua caminhada independente.
É sempre a voz de Eugénio Lisboa, clara e preclara, forte e sem peias, chamando as coisas pelos seus próprios nomes, que nos acompanha neste percurso de 500 páginas e onze [vinte e um] anos. Sabe bem ler essa narrativa contra o pano de fundo que a nossa memória guarda das notícias que sobre Moçambique eram veiculadas pela comunicação social, e apercebermo-nos de como se desenrolava de facto, por detrás da fachada oficial ou oficiosa, tudo aquilo que depois se veio a saber. Eugénio Lisboa viaja pelos anos dando a conhecer ao leitor um universo especial, obviamente o de uma minoria particularmente culta, mas que em Moçambique nem foi assim tão minoria, se atentarmos na plêiade de nomes que mais frequentemente ressaltam nas páginas do livro por se cruzarem na vida do autor: Maria de Lourdes Cortez, José Craveirinha, Reinaldo Ferreira, António de Figueiredo, Ascêncio Freitas, Luís Bernardo Howana, Rui Knopfli, Alberto de Lacerda, Virgílio de Lemos, Alfredo Margarido[eliminar], Hermínio Martins, António Quadros (pintor), Glória de Sant’Ana, Noémia de Sousa, são só alguns exemplos. E claro que havia outra gente interveniente e activa nessa Lourenço Marques que produziu uma notável elite ainda hoje marcante na cultura portuguesa. Não se trata de modo nenhum de uma história intelectual do período mas tão só de uma “crónica dos anos da peste” (para roubar o título a um livro de Eugénio que, por sinal, lhe foi oferecido por Rui Knopfli), embora o termo “crónica” não capte devidamente a intensidade dinâmica que infiltra a narrativa e a transporta para um patamar quase fílmico onde as imagens se sobrepõem incessantemente, acumulando tensão e colando à tela a atenção do espectador. Nesse sentido, o livro funciona como um romance à clef, mas cujos enredo e desfecho são antecipadamente conhecidos do leitor, apanhado este pela avidez de conhecer os meandros do caso particular do autor, de como ele viveu a experiência da independência de Moçambique, a descolonização e a partida para a pátria que não era sua, porque essa ficara na Lourenço Marques que o tempo enterrou. Por isso as oitenta páginas da última parte do livro atingem um ritmo e uma densidade dramática empolgantes. São páginas fortes, duras, relatadas com contensão, sem arroubos demagógicos nem laivos de tragédia, mas também sem rodeios nem subterfúgios politicamente correctos. Os leitores de Eugénio Lisboa conhecem-lhe bem o estilo e não ficarão surpreendidos com a transparência da linguagem; familiarizados que estão com a sua prosa certeira, poderão agora deleitar-se com esta oferta de uma narrativa de grande fôlego, de um quase-romance.
Sem ter aparentemente tido a pretensão de escrever uma história cultural de Moçambique, ou nem sequer a sua própria biografia intelectual, Eugénio deixa esboçado nos seus contornos o seu próprio universo ideológico e literário. As apetitosas citações e referências pescadas em quilométricas leituras, com que EL profusamente condimenta e salpica as suas crónicas e ensaios, dão aqui lugar a uma sequência interminável de factos servidos por uma memória portentosa, como se eles fossem demasiados para o espaço e tempo de que dispõe. Voraz leitor e amante da grande literatura, Eugénio viveu no longínquo hemisfério sul de ouvido e olhar atentos ao norte, aonde ia regularmente abastecer-se. Nestas páginas apenas ressaltam, incontrolada e inevitavelmente, por aqui e por ali, alusões aos seus autores de cabeceira e coração, aqueles que formaram o ensaísta, o cronista e o homem que hoje tanto apreciamos, habituados que estamos a vê-lo navegar com um imenso à-vontade e uma familiaridade impressionante (agora diz-se impressiva em tradução do inglês) pelas estantes do cânone ocidental. EL deve muito aos seus autores-do-peito e gosta de reconhecê-los e publicitá-los a ver se atrai compinchas que lhe queiram fazer companhia. A constelação é vasta e brilhante: Montherlant e José Régio (tinha de referi-los primeiro), Voltaire, Swift, Anatole France, Gide, Proust, Valéry, Thomas Mann, Laclos, Bertrand Russell, Pessoa, Stendhal, Jean Anouilh, Gide, Flaubert, Dostoievsky, Tolstoi, Turgueney, George Eliot, Balzac, Mishima, Marcel Aymé, Eça, T. S. Eliot, Shakespeare… e a lista continuaria mas já basta para um mapeamento de estrelas que dão bem para configurar um universo.
As farpas que habitualmente lhe saltam das linhas na sua escrita são aqui quase sempre dirigidas ao status quo politico e não aos correligionários das letras, como se Eugénio estivesse mais interessado em evocar boas memórias e esquecer ou ignorar tricas inevitáveis num qualquer percurso. Uma que outra vez, a verve não perdoa, como naquele desvio provocado por uma menção de Gyorgy Lukacs - e lá vem a faca afiada – “que, durante algum tempo, se aninhou, quentinho, no sovaco do Eduardo Prado Coelho […] antes de [este] se desgostar dos seus amores juvenis e passar a mudar de “maître-à-penser”, como quem muda de camisa (e sempre sem dor)” (pp. 393-4).
Estamos perante uma obra de envergadura que vem desassombradamente marcar o ponto na nossa literatura memorialista, para a qual de repente parece termos despertado. Um livro vertical e nobre, frontal e humano, demasiado humano. Se tivesse de seleccionar um exemplo demonstrativo da justeza dos adjectivos que derramei sobre a frase anterior, creio que escolheria esta passagem: “[…] esta estúpida lei [da Frelimo] das nacionalidades, no seu fundamentalismo primário e demagógico, ignorava uma realidade: para muitos europeus nascidos em África, como eu, o nosso universo cultural (e este engloba afectos) era mesmo duplo: éramos profundamente europeus e profundamente africanos. Mas precisamente: éramos portugueses e moçambicanos. Nenhuma dessas vivências profundas podia ser irradicada por decreto. Dessem-me ou não me dessem passaporte, era moçambicano; dessem-me ou não me dessem passaporte, era português. O que eu era, em profundidade, era o que eu sentia e não o que qualquer burocrata vestido de político efémero (e iletrado) decidisse que eu era. E ainda hoje penso assim. Quem decide a minha nacionalidade autêntica sou eu e mais ninguém.” (p. 465).
Quem escreve assim sabe da língua e da vida. Se ainda por cima sabe de literatura e nos faz, à distância, viver vicariamente páginas de uma experiência rica, enriquece a literatura, como os leitores enriquecem com o capital que os bons livros geram.


Onésimo Teotónio Almeida


por : Lélia Pereira Nunes
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2014-02-21 13:53:25

Uma estátua (com resplendor) para Natália Correia - nota de um quase-diário Onésimo T.Almeida



Uma estátua (com resplendor) para Natália Correia	- nota de um quase-diário Onésimo T.Almeida

Uma estátua (com resplendor) para Natália Correia
- nota de um quase-diário



Ontem à noite não resisti e atirei-me à leitura da segunda metade de O Botequim da Natália.
À medida que o livro avança e avança a idade da Natália, tudo vai ficando mais sombrio e menos divertido. A atitude adoradora e de desculpa-tudo por parte do autor, Fernando DaCosta, não o impede de uma que outra vez reconhecer aquilo que todos conhecemos na última fase da vida da Natália. Cito dele: “Viajar com a Natália Correia era uma aventura ora apaixonante, ora desesperante, tais os imprevistos, os incidentes, os caprichos, os temores, que a possuíam.” (p. 238) Noutra passagem, porque a Natália não tinha carro de luxo mas exigia um quando a convidavam a ir falar aqui ou ali, conta Dacosta: ”Uma tarde, no Norte, puseram-lhe à disposição um Panda para a transportar para Lisboa. Fez um berreiro medonho só se calando quando um motorista fardado, de boné na mão, lhe abriu a porta de um luxuoso (alugado) Mercedes de casamentos.” (p. 242)
Nas sessenta páginas anteriores, eu não encontrara ainda sinais claros de que Dacosta via ou muito menos se incomodava com certas atitudes da sua adorada deusa. Fiquei deveras boquiaberto com a sua capacidade de aceitação de tudo o que vinha contando. Veja-se este exemplo, que transcrevo por inteiro:
“Necessitando de dar um jantar de cerimónia em sua casa, Natália Correia pediu a criada a uma amiga emprestada (sic). A mulher foi, mas a sua cadela de estimação (a Paloma) embirrou com a intrusa e mordeu-a numa perna com tal fúria que ela teve de ser levada às urgências de S. José.
Aí os médicos quiseram saber se o animal estava vacinado. Contactada pelo telefone, Natália exclamou: “Sei lá, mas que interesse tem isso?”
â€œÉ que a rapariga pode correr riscos, se não se souber…”, responderam-lhe.
“E a cadelinha?”, interrompeu Natália. “A cadelinha é que me preocupa, já me inspirou um poema e uma crónica, por sinal muito interessante, agora a criada não, nunca me inspirou nada, nem um verso!” (p. 182)
A transcrição está verbatim. E termina sem o mais leve comentário do hagiógrafo.
O episódio no Porto, aquando do colóquio organizado pela Casa dos Açores do Norte (p. 186), está deficientemente narrado e falta-lhe todo o contexto. O Fernando Dacosta não estava lá. Eu estava. A Natália andava furiosíssima comigo e nem queria ir ao Porto - uma longa estória que um dia hei-de pôr por escrito. Nada a ver com a versão que corre por aí segundo a qual eu lhe teria dado um pontapé. O Eduíno de Jesus foi testemunha de todo o caso, tal como eu aliás fui testemunha do incidente que o envolve a ele, no hotel do Porto, e que Dacosta recebeu distorcido via António Valdemar, que também não estava lá. A Natália exigiu dois quartos e o hotel não tinha mais nenhum disponível além do que estava reservado para a escritora. É verdade que quiseram pôr o Eduíno num outro hotel e o Eduíno sentiu-se (e justamente) ofendido. Fui eu que fui ter com a gerência e disse: O Eduíno não sai daqui. Se sair, sairei eu e mais um grupo de gente. Arranjem para a Natália um segundo quarto onde quiserem, ou então o Dórdio que vá dormir noutro hotel. E o Eduíno ficou, ao contrário do que afirma Dacosta.
Há mais deslizes. Dacosta cita a Natália a prometer-lhe “Havemos de ir à (sic) Terra Nostra” (p. 252), referindo-se ao parque Terra Nostra das Furnas e a que, aliás, chama “bosque” (p. 250). Fala no “culto” dos romeiros (p. 252), quando em S. Miguel é sempre referido como “tradição”, não se tratando propriamente de um culto. Refere o bispo D. Aurélio Granada como “D. Alberto Granado” (p. 258). E diz que “o avião espera na pista de Angra” (p. 257), cidade onde só há porto; o aeroporto fica nas Lajes. Mas há mais (claro que falo dos casos e realidades que conheço): a propósito da viagem da Natália aos EUA, que deu origem ao livro Descobri Que Era Europeia, sobre o qual escrevi um ensaio publicado em Natália Correia, A Festa da Escrita, coordenado pela Maria Fernanda Abreu e mais duas colegas, (Colibri, 2010), que por sinal não consta na lista das fontes consultadas por Dacosta, há no seu livro um episódio narrado em dois parágrafos (p. 184) e banhado de erros grosseiros. Uma estória que se passou em Nova Iorque é contada como tendo ocorrido em Marrocos. Passou-se, de facto, com João Hall Themido, mas ele nessa altura não era embaixador, pois só o foi vinte anos depois, e em Washington. O caso deu-se quando ele era um jovem diplomata e trabalhava no Consulado de Nova Iorque. Além disso, a estória está mal contada e a frase de Natália foi diferente. Para não falar de ter sido mesmo durante essa viagem que ela abandonou o marido americano e não “meses mais tarde”, como no livro vem dito. Mas contei já isso noutro lado ("A autodescoberta de uma europeia na América - ou quando Natália Correia descobriu que era Natália", pp. 35-51 do acima referido volume).

Por estas e por outras se vê que, se O Botequim da Liberdade consegue de facto retratar a Natália, não é de confiança em termos de factos, dados, pormenores. As citações da sua protagonista são quase todas reproduzidas de cor, recriadas a grande distância. Circula na NET uma série delas sobre os nossos tempos de hoje com o título “Premonições de Natália Correia”. Quando as li pela primeira vez comentei para quem mas enviou: O núcleo duro das ideias é Natália, porém a roupagem já é muito linguagem de Dacosta, toda bem dos nossos dias.
Aliás, o autor avisa numa “Nota final”:
“A linguagem de Natália ganhava espessuras difíceis de apreender por não inciados, pelo que a reproduzimos, por vezes, em discurso indirecto, mais clarificador e descodificador do seu pensamento.” (p. 324).
Um livro cheio de méritos por conseguir pintar a Natália bem ao vivo e viva como ela era. Não se trata de uma biografia, nada a ver com uma obra do género de Antero de Quental. Subsídios para uma biografia que J. Bruno Carreiro exemplarmente escreveu sobre Antero. Também este adorava o seu ídolo, mas era seguríssimo nos factos narrados, sempre escrupulosamente investigados.
Enfim, uma estátua para Natália, do estilo que ela gostaria que alguém lhe fizesse. Porque a diva também detestava factos e ninharias académicas, como sempre o demonstrou nos seus ensaios. Nela as ideias voavam soltas como as pombas, mesmo que fosse a Pomba do Espírito Santo, que ela inventou ser feminina. Se estava na sua cabeça, isso bastava para ser real. Transformava-se em paixão. E, segundo ela, o que o mundo precisava era mesmo de paixão. Essa Natália, ou pelo menos esse lado da estátua, é o que fica captado – e calorosamente - em O Botequim da Liberdade.


Onésimo Teotónio Almeida


por : Lélia Pereira Nunes
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2014-02-11 02:04:44

“Roteiro das Festas do Divino Espírito Santo Açores/Comunidades."








Missa da Coroação/Açores

“Roteiro das Festas do Divino Espírito Santo Açores/Comunidades.



O Governo dos Açores, através das Direções Regionais das Comunidades e da Cultura, está desenvolvendo uma base de dados online, de acesso universal, denominada “Roteiro das Festas do Divino Espírito Santo Açores/Comunidades.

Este projeto tem como objetivo principal mapear todas as comemorações deste culto, nos Açores e nas comunidades açorianas da diáspora, não apenas para dar a conhecer a existência e a manutenção desta tradição secular, vivenciada por milhares de açorianas e açorianos, mas também promover e divulgar, em especial, junto das gerações vindouras e das sociedades onde estão integradas, este pilar identitário dos seus antepassados.

De igual modo, e acompanhando a atualidade, o Roteiro das Festas do Espírito Santo Açores/Comunidades será um site da internet que disponibilizará a informação histórica de cada Festa, complementada com fotos ilustrativas da sua realização e evolução que tem vindo a sofrer ao longo da sua existência, os contactos das que se encontram em plena atividade, bem como as datas de celebração deste culto.

A concretização deste projeto e a sua atualização permanente só será possível com a colaboração de todas e todos os que estejam ligados ao Culto do Espírito Santo.

Assim sendo, encarrega-me o Sr. Diretor Regional das Comunidades, Dr. Paulo Teves, de solicitar a vossa prestimosa colaboração no preenchimento do formulário, que remetemos em anexo, agradecendo a sua devolução para o endereço de correio eletrónico: drc@azores.gov.pt, até ao próximo dia 14 de março.

De igual modo, agradecíamos o apoio de V. Exa. na divulgação deste projeto, a fim de podermos contar com as centenas de Festas do Divino Espírito Santo celebradas nas nossas Comunidades Açorianas da Diáspora.

Antecipadamente gratos por toda a atenção e disponibilidade de V. Exas., e estando à vossa inteira disposição para eventuais esclarecimentos, apresentamos os melhores cumprimentos,

Maria do Céu Ornelas
Direção Regional das Comunidades
Angra do Heroísmo
Telef: + 351 295 403 630


Festa do Divino, saída da Bandeira.
Mirim/SC - foto de Juceneide


por : Lélia Pereira Nunes
Tags : Canadá,E.U.A.,Venezuela,Brasil,Portugal,Açores

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2014-02-02 01:33:26

DEZ ANOS SEM ALDÍRIO SIMÕES... Histórias que o tempo não apaga



Hoje, dois de fevereiro, dia consagrado a  Nossa Senhora dos Navegantes, a Stella Maris,protetora dos Navegantes,dos homens do mar e,também, de Yemanjá,Janaína,rainha do mar. Tradições religiosas da Igreja Católica,a Mãe de Deus e da cultura Iorubá, a Mãe dos Orixás. Sem dúvida,uma rica dicotomia de crença e sincretismo religioso do povo brasileiro.
Por toda Santa Catarina,procissões de barcos levando a imagem da Senhora percorrem rios, lagoas e mar .
É lindo de se ver.
Tradição que teve no jornalista Aldírio Simões um grande seguidor e divulgador.
Dez anos de sua partida, quem sabe sua alma de ilhéu não navega,hoje,pelas águas da sua Lagoa,a da Conceição.
Para os leitores duas notas em homenagem ao saudoso amigo e homem de cultura. Uma vem de Providence,do escritor Onésimo T.Almeida e outra é de minha autoria.

Lélia Pereira Nunes
Blog Comunidades
Ilha de Santa Catarina,2 de fevereiro de 2014

DEZ ANOS SEM ALDÍRIO SIMÕES... Histórias que o tempo não apaga

DEZ ANOS SEM ALDÍRIO SIMÕES... Histórias que o tempo não apaga


Aldírio Simões,um grande amigo e parceiro de muitos projetos culturais. Aproximou-nos o desejo maior de salvaguardar os saberes, as crenças, as tradições de Florianópolis como a Festa do Divino Espírito Santo, a Procissão do Senhor dos Passos e dos Navegantes, o Boi de Mamão, a gastronomia típica, a pesca, a renda de bilro, o carnaval e, sobretudo, aquelas originárias da diáspora açoriana do século XVIII.Ousado, teve coragem de valorizar o ilhéu nativo - o "Manezinho" - a identidade renascida e abraçada de forma incontestável. Com Aldirio Simões e sua paixão pela Ilha nasceu um novo olhar - de respeito e reverência - ao Manezinho que ele soube como ninguém colocar no seu devido lugar e dando a real dimensão da dignidade.

Grande comunicador, foi voz e deu voz à nossa gente, nas emissoras de radio, na televisão e nos jornais onde mantinha a sua coluna diária “Fala Mané” no NA Capital,suplemento do Jornal A Notícia. Cronista da alma da Ilha, de Florianópolis, do carnaval, da terra, do mar, dos valores mais típicos da nossa gente. Este era seu chão e daí gerava a sua escrita simples e alegre.
Mesmo passados 10 anos de sua partida, Florianópolis não o esquece. Junto da saudade da sua presença amiga ficou um legado inegável representado por sua importante produção literária para quem se aventurar a conhecer a alma do ilhéu. Uma herança que permanecerá viva no correr das gerações como parte da nossa história cultural.

Histórias ou memórias que o tempo não apaga...

No ano de 1998, numa ação de intercâmbio cultural - "De volta às Raízes," promovida pela Direção Regional das Comunidades, do Governo Regional dos Açores, Aldírio Simões visitou as Ilhas Terceira, Faial, Pico e São Jorge. Apaixonou-se perdidamente pelos Açores.
Desde então, seu grande sonho era gravar um programa do “Bar Fala Mané” nos Açores. O projeto começou a ser construído em parceria com a SBT-SC e a Fundação Franklin Cascaes,da qual eu era Superindentente. Em Janeiro de 2004, apresentei a ideia a Osvaldo Cabral, na época Diretor Geral da RTP-Açores, que acolheu com entusiasmo o projeto previsto para ser realizado em junho de 2004. A boa nova circulou na Imprensa local e na sua coluna “Fala Mané”. A divulgação oficial, ou o arranque para a concretização, seria dado no programa “Bar Fala Mané”, a ser gravado na noite de sexta-feira, dia 23 de janeiro de 2004.
No entanto, o Bar não abriu.
Um dia antes, na cinzenta manhã de quinta-feira, Aldírio Simões pregou-nos uma grande peça - simplesmente desgarrou sua Ilha e partiu...
Falar do Aldírio é como mexer num balaio de siris. Puxa um e vem todos...
Assim, lembro uma outra passagem. O aniversário da Fundação Franklin Cascaes em 29 de Julho de 2002. Uma grande festa e intensa programação. Entre os convidados, os escritores Onésimo Teotónio Almeida e Leonor Simas-Almeida da Brown University,Providence(USA). Onésimo proferiu conferência na Academia Catarinense de Letras e, com a Leonor, participou das inúmeras atividades desenvolvidas por ocasião do aniversário da Fundação. O casal fez questão de conhecer Florianópolis e tudo que dissesse respeito às tradições culturais da capital.
Aldírio Simões, que já conhecia a projeção cultural e a envergadura de seu currículo, além do bom papo e grande contador de histórias, fez questão de entrevistá-lo no seu programa televisivo que, naquela semana, seria gravado, excepcionalmente, na Praia do Sonho, no município da Palhoça, no Continente. Na última parte do programa seria oferecido um farto almoço e,no cardápio, músculo assado na panela.
A entrevista terminou em um clima muito descontraído.Nada de espanto,afinal o encontro de dois ótimos nomes da comunicação social e tendo em comum os Açores só poderia resultar bem. Sucesso absoluto. Muitas histórias e gargalhadas depois chegou a hora de servir o esperado “músculo na panela” e encerrar as gravações do programa.
- Professora,traz o Onésimo,o escritor açoriano. Vamos encerrar agora,grita o Aldírio
- Onde está o Onésimo? Cadê o Onésimo?
- Procuramos por todos os lados e nada. Minutos foram passando...
- Saímos para fora da casa a procurá-lo nas redondezas (diga-se de passagem que a Leonor assistia à movimentação tranquila,pois afinal conhece bem o marido que tem). Ao pé dali,coisa de uns 200 metros, uma família almoçava. O aroma do churrasco e as gargalhadas tomavam conta do sítio.
Sebastião,meu marido comentou - estás vendo aquela casa rosa? Presta atenção nas gargalhadas, parece que alguém está contando anedotas.
Entramos na tal casa. No fundo do quintal uma grande mesa em torno da qual celebrava-se um aniversário. Entre eles, e muito à vontade, estava o Onésimo todo sorridente a contar histórias que, como bem sabemos, só ele sabe contar.

Infelizmente, não tenho mais as fotos que registram esses momentos de grande convívio e alegria.Momentos guardados para sempre. Impagáveis!
Doze anos depois (e dez da morte do Aldírio) pergunto ao Onésimo o que guardara na memória sobre este breve convívio com jornalista Aldírio Simões na sua visita Florianópolis.


Escreve Onésimo T.Almeida:

"Foi assim e as fotos estão aí a demosntrá-lo. O Aldírio no meio de nós explodindo de vida e humor, alegria, wit, convivialidade suprema, tudo numa boa que um visitante como eu, caído sem pára-quedas em Florianópolis, tomava como sendo de outro mundo a confirmar que, para lá do Equador, se não era verdade não existir pecado, ao menos tristeza não se enxergava.
Foi rápido o encontro, a conversa na TV ou na rádio (já nem me recordo), a folia no parque, numa festa que as fotografias não registaram o nome, pois não vêm com legendas e a memória não consegue reconstrui-las.
Trouxe comigo esses momentos, esses rostos, essas faces de sorriso rasgado e, de repente, tão de repente como me surgiu esse monumento de comunicação que era o Aldírio Simões, chegou a notícia de ele ter abruptamente decidido que era bastante, qualquer razão estranha lhe ditara ser tempo de acabar a festa da vida.
Tudo um mistério que não entendi como não entendera antes de onde vinha tanto humor nem tão contagiosa maneira de estar neste mundo."


Legenda Fotos:
1. Procissão N.S.dos Navegantes, Costa da lagoa - de Marisa O.Carvalho
2. Fotos Aldírio - Acervo Jornal Notícias do Dia/ Coluna Ricardinho Machado  e Lélia Nunes


por : Lélia Pereira Nunes
Tags : E.U.A.,Brasil,Portugal,Açores

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2014-04-21 03:04:04

The Blums in Exile: Scenes from an unpublished novel - Julian Silva









THE BLUMS IN EXILE

Scenes from an unpublished novel

by

Julian Silva

 

"You do not tonight expect French cuisine, I hope?" Claudine Blum greets Vasco Ramos, as she flips a most prosaic hamburger in a cast-iron frying pan.
      Dressed in honest black, rather than her customary navy blue, she has invited him to dinner for the first time in the two years they have known each other. Unlike her diamond-bedecked mother Vasco met earlier at the door, a handsome tanned woman in her late-forties dressed in formal French mourning veils for the husband she had for years done everything in her power to ignore, Claudine wears virtually no jewelry: a blue-enamel Cross of Lorraine on a thin gold chain about her neck, a political not  a religious statement, and the simplest of pearl earrings
      The Blums' flat has more than ever the air of a temporary bivouac. There are no rugs on the stained-oak floors. The furniture is nondescript. A hodgepodge of unmatched pieces scrounged from various apartment-house basements and sundry attics with no overriding spirit or personality to blend the incongruities: the bastard French chaise with the Philippine-bamboo easy chair or the overstuffed American sofa. Nor has any effort been made in the last two years to superimpose a personality. There are no pictures on the walls. No flowers. No bibelot. There is not so much as a pillow that gives evidence of ever having been crushed with affection.
       Disorder is rampant. Chairs are left where last used: next to a lamp with a cord too short to reach a central grouping and before a window where toenail clippings give evidence of a recent pedicure. A pair of red satin high heel shoes (certainly not Claudine's) lies on the floor before the sofa, an open purse on a blond, glass-topped coffee table alongside a coffee cup crusted with a crackle glaze of caramel sediment. It is the dishabille of those who have always had menials to pick up after them.
      Although he is awed by the drama of the family's recent history, something about the place and the Blums themselves chills him. Like the furniture, each member seems a separate, unrelated entity. All the parents of his other friends are simple in comparison. Even Jonny's impossible parents are more of a family and their violent tempers and alcoholic brawls ultimately less lethal than the Blums' exquisite decorum.
      Tall, balding, sharp-featured and languorously elegant, M. Blum, dressed at home always in a meal-spotted, floor-length, silk robe, was like a Comedie-Francaise diplomat: worldly, wry, cynical of all save his devotion to an ideal that had once been France. Preoccupied with the War and his own imminent death, he remained aloof from all household concerns, detached from everyone, particularly his wife, whom he treated always in the presence of strangers with excruciating politeness. A deference so extreme it might, perhaps, have been intended to be read as irony. He never raised his voice, never nagged, never complained. His kindness was a formal ritual, correct, often charming, but ultimately heartless. He lived only for France. And the son now fighting for that France. Philippe. An almost femininely beautiful Free French flyer based in London whose photograph in a tarnished silver frame is the sole personal touch in an otherwise soulless apartment.
      Obstinately, and apparently against considerable odds, M. Blum refused to die, keeping himself alive by force of will until the Paris he would never again see was liberated. Weekly he dragged his desiccated but proudly unbent body to the broadcasting studio to tape the messages that were later radioed to Occupied France in the name of the Free French. Until De Gaulle's vindication gave him at last the leisure and the will to die. Four days after the liberation of Paris he was quietly cremated and his ashes stored in a small pine box to be transported back to France for burial in Pere Lachaise.

                                                                           *

"Votre petit camarade de jeu, cheri," Mme. Blum called from the doorway. Then with her mourning veils thrown back off her still-tanned face and looking eerily like a bride in black, she bestowed on Vasco a smile as brilliant and as hard as her diamonds. Which, like Paris, have themselves only recently been liberated, in this instance from the security of a local bank vault
      She has both fascinated and terrified Vasco from the moment he first saw her open the door to their apartment two years before. It was a revelatory moment, in an instant bursting every cherished myth of motherhood. She was then also dressed in black, a skimpy two-piece bathing suit cut so low her navel was exposed with several inches to spare, her still elegant body shining like a piece of freshly polished Chippendale. Having just come in from sunbathing on the Marina Green and looking as though she gobbled up young men like him as appetizers, she made no effort to cover herself, but sat with seriously-tanned legs crossed on the arm of an overstuffed easy chair, speaking to him in a language she surely knew he did not understand. She took out a cigarette, and looking about for matches, smiled as he approached with a trembling flame.
      "Charmant," she said.
      He understood that, and something more, which her smile alone said.
      "Mais, il est joli," she continued, speaking to Claudine but keeping her dark eyes fixed on him.
      Then Claudine entered, standing expressionless before her shamelessly worldly mother as she spoke:
      "Oui. Mais il est mon joli. "
      He saw Claudine then, only for a moment, as she must have seemed to others: a slightly chubby adolescent with fine skin, superb bones partially hidden by too much flesh. The raw material for a beauty which might someday be more than just the promise it now was. Unlike her mother, Claudine never sunbathed, but shielded her creamy-white skin at all times, even on the beach, from the naked sun. Not once had he seen her in a bathing suit or a pair of shorts.
      "I'm sorry," Vasco stammered at the door as he arrived for dinner. "About your husband."
      Without a word, Mme. Blum nodded somberly, then once again smiling, she stepped aside to let him pass. She made no effort to dim the radiance of her smile with her mourning veils or, except for the formal but silent acknowledgement of his equally formal sympathy, so much as a pretense of sorrow. Her husband was dead, her face said in a language that needed no translator, but Paris was free. As she was herself once again free, liberated from the bondage of an arranged and mostly loveless marriage. In less than two weeks she would be in New York to await the sailing of the first ship carrying non-military passengers to France.

*

      "You do not tonight expect French cuisine, I hope?"
      "Hello." Blushing with pleasure, Vasco peers into the pan, the contents of which are hardly tempting enough to hold his interest for long. Then he looks at her. In the two years he has known her, virtually all the baby fat has disappeared and her beauty has become considerably more than promise. "You look lovely tonight," he says, though her beauty ironically resembles nothing so much as a Nazi poster extolling the glories of blond Aryan pulchritude. For her face conjures up images of Alpine meadows, creamy rich sauces, pink Austrian cheeks and tinkling brass cowbells rather than Parisian chic. Marlene Dietrich is the Platonic ideal upon which it has been modeled, with perfectly sculpted cheekbones, a strong, distinctive jawline, and heavily-lidded, not-quite-blue eyes.    
      "Why tonight, especially? Lovely at the stove? Me? Or are you just practicing your sweet lies?" Her teasing eyes challenge rather than mock.
      "Why should I lie? If you didn't look lovely, I'd say your dress looked great. Or something else. That hamburger, for instance."
      He hopes it is not going to be another evening of cruel game-playing.
      The doorbell rings.
      "Bon soir, mes enfants," Mme. Blum calls from the hallway.
      "Bon soir, Mamma." Claudine's reply is scarcely loud enough to carry beyond the kitchen.
      The door slams shut. They are alone.
      "Your mother looks impressive in mourning," he ventures.
      "Yes, doesn't she? Always tres chic, Mamma." The voice is so dryly non-committal it is all he needs to understand more, perhaps, than she intends. "0h, cheri, forgive me. I forgot." She smiles as she once again flips the hamburger patties, which he has realized for some time are already overcooked. "Tonight is Friday and you do not eat meat on Friday."
      The forgetting, he knew, was a lie. She meant to test him.
      "I'd eat anything you cooked. Any day of the week."
      She laughs, quite unaffectedly for a change, like any ordinary young girl.
      "And how you would suffer! Before I left France I did not know how to boil water. But will you have to go and confess yourself to a priest? Poor Arabee."  She is the only one outside his family permitted to use this variation of his strange nickname.
      "Yes, I'll have to confess. Particularly since you didn't give me the option of forgetting it's Friday."
      She laughs again. "I will be your sin. Like the name of a cheap perfume. My Sin. But suppose Lenore drives us off a cliff and we all die. Will you then have to go to hell? Just for me?"
      This at least is a game he can play without effort. Or hurt.
      "Yes, I suppose so. But you wouldn't want me to go alone, would you? So we can keep each other company."
      "But must I go to hell too for eating meat? Even when I am not Catholic?"
      "Not for eating meat. Just for feeding it to me. It wouldn't be fair to let me suffer all alone, would it? Especially if you are to blame. And God, we must assume, is fair. If nothing else."
      "Ah, God," she sighs, the teasing smile suddenly gone from her voice. "It is such a big word for so few letters. Far too big for my tiny head. So we will talk about something else."

*

Prejudiced though he may be, he is forced to admit Claudine's dinner adds no fresh luster to the glory of France. Tall, over-weight, thick-ankled Lenore, the only friend with a car, and every bit as important, as a government worker, with enough gasoline to keep that car running, is never late and she is due to call for them at eight. They are going to a farewell party somewhere out near St. Francis Woods and they may never again be alone together. It is now or never, and he cannot live with the prospect of that never. As a delaying tactic, Claudine is wasting precious minutes with her toilet.
      "Can't you just sit with me for a minute?" He is standing behind her at the mirror and trying not to look at his own reflection. To be reminded yet again how impossibly young he is. "Before Lenore comes. You know she's always early."
      "But I haven't finished my hair."
      She is playing coy, holding a comb indecisively in the air above her perfectly-coiffed hair.
      "Leave it. Your hair looks fine." He grabs the comb from her hand, throws it onto the vanity table and draws her to the couch with him.
       "My, how forceful you are. Suddenly."
      Her smile is a mocking challenge he accepts. He embraces her, trapping her hands against his chest. She resists, pressing against him to free herself. 
      "No. It is too late. What good would it do? Only make you sadder."
      "Only me?"
      He holds her tighter, muffling her protest with his lips. Miraculously their noses do not bump. The prospect had terrified him, for laughter would have proved fatal. Now that he has begun, he will not stop until she answers him, kiss for kiss. He can feel the squirming warm body pressed against his gradually relax, while her hands cease to press with any conviction. As he draws her closer, the hands soon slip up and over, about his neck. He kisses her on the neck, the cheek, and that tenderest of spots behind the ear, before once again finding her lips. It is a technique garnered from assiduous study of Charles Boyer (he has already seen Mayerling six times) and again, miraculously, the stratagem works. Not only has she ceased to struggle, she is actually clinging to him. Her lips part, her tongue slips into his mouth. He sucks on it, drawing it deeper into him, his bliss paradoxically blemished only by its physical manifestation uncomfortably trapped in the rigorous bind of his Jockey shorts. No sooner has he achieved his object, than the doorbell rings. A loud and ugly buzz. Like static interrupting a short-wave radio broadcast.
      Stunned, they part, their eyes dazed, a silly sad smile on his face.
      "Merde," Claudine says, and he understands that too. "Damn the fat old cow."
      He will never, he thinks, understand the workings of the female mind, yet they are the sweetest words he has ever heard cross her pretty, pouting lips.






Julian Silva
is a fourth-generation Portuguese-American whose Azorean ancestors first settled in the San Francisco Bay Area in the 1870s. His novel, The Gunnysack Castle, was first published by Ohio Universiy Press in 1983. The second section of the Death of Mae Ramos, "Vasco and the Other" was originally published in 1979 in Writer's Forum 6, University of Colorado.
In 2007, Distant Music Two novels: Gunnysack Castle and The Death of Mae Ramos was published by Portuguese in the Americas Series, University of Massachusetts Dartmouth . Distant Music is the story of the Woods (anglicized Portuguese) and Ramos families and their descendants in California. In these narratives Julian Silva "celebrates not only the resilience of men and women confronted with failure but, even more important, he exposes the compromised morality of their achievement" (Portuguese in the Americas Series).

 

 

 



por : Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes
Tags : Canadá,E.U.A.,Brasil,Açores

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2014-01-10 12:28:00

Like a Good Unknown Poet - Art Coelho


Originally published in Comunidades  (2010)


        
        Hell of a Place to End Up, Canners, Art Coelho ©




Like a Good Unknown Poet

I play my blues harp
for the McGuire killer horses
going to Canada each week
to be made into dog food.
The horses are sold by the pound,
depending on how much horseflesh
dealing McGuire has with his customers;
four and five and six cents a pound-
that's the going rate for last ride death horses.

I give these shitter horses
their last bale of hay and their last song.
Their last pat on the head comes from me.
My two dollars an hour does not include
stroking the McGuire killer horses.
This is at my own expense
'cause it's extremely hard to love
something beaten and finished.

You really can take pity on the horses.
They got broken legs, some are too old,
have only one eye, diseased, unwanted;
but every once in a while
like a good unknown poet
a healthy horse slips through
'cause the owner doesn't want to push
the high-priced hay into him all winter long;
and Old McGuire can't save him
because horses are a business;
and remember above all else
that McGuire gets paid by the pound
like I get my two bucks an hour
for the shit shovel and fate.


This poem was written in 1969 when I worked at the Spokane Stockyards in Spokane, Washington. My job description was 'stock handler'. As a result of this nine months job I wrote an unpublished novel about killer horses called The Hobo Fire.

Art Coelho

 

 



Art Coelho (sometimes spelled Cuelho) was born in Fresno, California in the central San Joaquin Valley, and lives in Montana since 1966. The grandson of Azorean immigrants, Art is an American poet, short-story writer, novelist, and painter, who has written extensively and whose works appear as independent volumes, as well as in academic journals and anthologies. Recent publications, among others, include The Scents Only the Heart Can Follow, University of Nebraska Press, Prairie Schooner, Volume 83, Number 1, Spring 2009, or "Hand-Me-Down Refugee" InterDISCIPLINARY Journal of Portugues Diaspor Studies (2013).

I would like to quote from a mail message that Art has written recently, since his own words better describe his relationship to his culture and his work; how the memories of the past and the complexities of the diaspora struggle to be part of a dialogue that may, or may not, find a way to resolve any uncomfortable residue.:

"What I am experiencing now is the Greenhorn in Reverse [...] By my eight visits to the Azores my experiences have proved this out. I'd already seen it in my own grandparents' generation too. When I was about 17 years old my maternal grandparents came to our house and my Mom and I were helping them with their banking because they couldn't read some document. My grandparents could only speak broken English. They'd talk to me in English, then forget and start talking in Portuguese; and I'd have to stop them and remind them that I didn't speak Portuguese. They couldn't write or read in English either. I had to teach myself how to speak, write, and read in Portuguese. And this allowed me to eventually read my people's history too. I've even tried to teach myself how to translate my own poetry, which is nearly impossible at this point of my language skills because I don't think like a rural Azorean. I am aware that if you are a rural farmer, a rural fisherman, etc.-it all deals with various ways or words that are specialized. And I've come full circle in my poetry writing because as in the poem The Lady of the Bulls, it is written not from an American's point of view, but simply how our culture is not being preserved."

In reference to the Azorean culture, Art writes: "I have a very good way of recapturing this. Like this summer in the Azores where I and my son Ira, and with my niece Lisa harvested grapes at Campo Raso, Pico Island with our Coelho cousins. We did the whole working process: cutting the red grapes, hauling the grapes to the adega, making grapes into wine; plus going to the co-op in Madalena where their extra grapes were sold. We not only celebrated the harvest in the shade of our cousins' adegas, but also stopped off at the bar after our co-op run. And going through the ancient fields and stopping off where others were processing their grapes in mini-ancient ways which haven't changed was a rewarding experience. Visiting closed alambiques that are now a dead or dying tradition because the men who owned them have died, and there simply is no one to replace them or the knowledge they had for all traditional licors. So when a friend in Horta tells me "the rural life is dying out," I don't believe it. My cousins still raise pigs; I attended Matança de porco; Holy Ghost Festa (Azorean style), and none of this is watered down by our typical values that changed after our immigration. So in other words, I have gained back a lot of the original feeling from ancient times, and how that doesn't change; and in small and major ways how it can change too, but there still is enough Azorean soul that is recognizable. It is these traditions that hang on that give us the kinds of intimate contact that keeps alive not only who we once were, but who we will become again by perseverance. I think the best way I can describe this kind of intimacy is in the first stanza of my poem, My Grandfather's Island.


It comes slow
as a foreign language
this hunger
for island truth;
smiles setting the pace
of a village by foot-
by poverty's intimacy.


[...] being Azorean-American has many facets, especially when you fight tooth-and-nail to regain your lost culture. And that is why [...] the novel I am writing, The Americanization of Antônio, is important to Azorean culture [...] and this work will be covering something that is new to Azorean-American literature."


Note 1: Like A Good Unknown Poet received the Pushcart Prize in 1976.
Note 2: The Pushcart Prize: Best of the Small Presses, edited by Bill Henderson with Pushcart Prize founding editors, First Edition, 1976-77.

 

 

 

 

 



por : Irene Blayer
Tags : Canadá,E.U.A.,Brasil,Portugal,Açores

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Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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