Quinta, 28 de Agosto de 2014
Pesquisa na RTP Açores - Informação e Desporto

Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2014-03-19 00:55:08

Crónicas Americanas - Nuno A.Vieira





Crónicas Americanas -Nuno A.Vieira





Crónicas Americanas
Nuno A.Vieira

Mão avisada, de amigo fiel, salvaguardou papéis que, em princípio, poderiam ter acabado na lixeira. Trata-se de uma série de crónicas, de Eduardo Mayone Dias, na sua maioria publicadas no jornal californiano – Diário Popular – e que, inicialmente, foram editadas em dois livros: Crónicas das Américas (1981) e Novas Crónicas das Américas (1986). Já no presente ano de 2014, essas duas obras, com a actualidade e frescura originais, foram compiladas e publicadas num só volume - Crónicas Americanas – na colecção Rio Atlântico, edição da Opera Omnia e com o apoio da FLAD.

O Dr. Eduardo Mayone Dias nasceu em Lisboa, licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa e doutorou-se em Literatura Hispânica pela University of Southern California. Tanto na Europa como nos Estados Unidos, leccionou em diferentes instituições de ensino; a partir de 1964, foi professor de Língua e Literatura Portuguesa na University of California, Los Angeles (UCLA) até à data em que se reformou.

O professor Mayone Dias tem uma produção literária cujos títulos são expressivos da temática a que se dedicou – Crónicas das Américas, Açorianos na Califórnia, Coisas da Lusalândia, Novas Crónicas das Américas, Falares Emigreses, Língua e Cultura (co-autor), Crónicas da Diáspora, e Miscelânea LUSAlandesa, A presença Portuguesa na Califórnia. Além dessas obras, publicou centenas de artigos e crónicas, em diversas revistas e jornais, versando aspectos das literaturas e culturas hispânicas.

A seguir, passarei a parafrasear um ilustre aluno do Professor Mayone Dias, também ele catedrático e escritor, o Dr. Francisco Cota Fagundes, onde em introdução a Crónicas Americanas, traça um perfil do homem, do professor e do escritor que foi Eduardo Mayone Dias. - Como homem, Mayone Dias foi um mentor, um amigo amável, atencioso, sociável, generoso, compreensivo, tolerante e modesto. Como docente, era amante e conhecedor profundo da sua bem-amada língua portuguesa. Foi, para mim, uma fonte de inspiração; soube ensinar o aluno a ensinar-se em vez de o submergir em informação que ele ou ela poderiam adquirir por si próprios na biblioteca. Tinha um invejável sentido de humor que, por vezes, emergia duma simples manipulação da linguagem.Como escritor, interessou-se pela evolução da língua portuguesa em contacto com o inglês (Falares Emigreses).- Na qualidade de filólogo e pedagogo de línguas, foi co-autor de Portugal: Língua e Cultura e, mais tarde, de Língua e Cultura e Brasil: Língua e Cultura. Sendo ele emigrante, dedicou-se à investigação do fenómeno emigratório.

A um nível mais pessoal, convivia com as comunidades portuguesas a quem dispensou uma amizade genuína e que, por sua vez, o acolhiam com estima e consideração. Bastava-se a si próprio, isentando-se dos títulos de doutor e professor. Foi uma presença constante em congressos, apresentando trabalhos literários. Francisco Fagundes identifica a diáspora como experiência observada e a diáspora como experiência vivida como o principal dos denominadores comuns nos vários tipos de crónica de Mayone Dias. O professor Fagundes enquadra as seguintes rubricas no corpus cronístico de Mayone Dias: a crónica histórica, a crónica de lugares (designação à que agora gostaria de acrescentar e crónicas de viagens), a crónica etnográfica, a crónica–retrato ou álbum; a crónica memorialista.

No New York Times Bestseller, The Geography of Bliss (A Geografia da Felicidade), Eric Weiner viaja por diferentes países no intuito de localizar a felicidade. Em Crónicas Americanas, Mayone Dias parece encontrá-la em cada esquina, desde as Ilhas de San Blas, em contacto com a cultura dos índios Kuna até ao Rio, em contacto com os cariocas. A manhã do seu primeiro dia no Rio tem o mesmo entusiasmo de todas as outras manhãs em que Mayone Dias se levanta para ver, observar, conhecer, explorar e contactar outras terras, outros povos, usos e costumes. Nas suas próprias palavras: Acordara cedo, excitado pela perspectiva de conhecer aquela cidade que por tantos anos para mim fora só sonho.

Em Crónicas Americanas, Mayone Dias viaja nos Estados Unidos, principalmente na costa da Califórnia. Vive no México. Visita Cuba e Jamaica. Vai a Cartagena de Índias. Passa um fim-de-semana em Lima. Anda à toa no Rio [sic]. Em Toronto e Newark, encontra ruas portuguesas, onde não se ouve uma sílaba em inglês, respectivamente a Ferry Street e a Rua Augusta.

Num primeiro contacto com a América, Mayone Dias começa por decifrar a linguagem das estatísticas nas mais diversas situações. Democratiza-se aos poucos com a informalidade do tu-para-cá-e-tu-para-lá, com o tratamento pelo primeiro nome e com a irreverência para com as autoridades políticas. Observa a vida no campus universitário, os programas universitários e as actividades extra-escolares, assim como o ambiente numa sala de aula e a relação cordial do aluno com o professor. Mais chocante foi o streaking, praticado sobretudo nas universidades, onde estudantes se lançavam numa corrida rápida, justamente com o toillete com que vieram a este mundo.

A devida altura, Mayone Dias apercebe-se da coexistência de dois tipos de americanos: o da imaginação europeia e o generoso, um pouco ingénuo e idealista às vezes, mas com sentido pragmático da fraternidade e da hospitalidade aberta e efusão instantânea que encontra expressão em linguagem corrente – Thank you! Dear! Honey! Have a nice day! E ainda em sorrisos. Não poderá esquecer a amabilidade dos seus vizinhos novos que lhe adocicaram a boca e a alma com um bolo onde se lia a palavra Welcome.

Num país diferente, há a cartilha dos feriados com uma nova História, outras tradições e celebrações. A América deslumbrante aparece nos exotismos de Hollywood Boulevard, no mundo fantástico da Disneylandia e na incrível cidade de Las Vegas, onde o jogo e o amor se conjugam.

A convivência, lado a lado, de diferentes etnias em relativa harmonia, é outra surpresa. Veja-se Los Angeles com os bairros judeus, coreanos, japoneses, chineses, mexicanos, negros e de uma classe privilegiada que são os artistas. – Essa talvez seja a América de um povo híbrido e contraditório de que fala Miguel Barbosa no prólogo de Crónicas Americanas. De maior perplexidade é o receber notícias da mãe pátria à distância, como por exemplo a notícia inesperada da revolução do 25 de Abril.

O trabalho de Mayone Dias não passou desapercebido ao governo português. Na badana da capa do livro Crónicas Americanas lê-se o seguinte em referência a Eduardo Mayone Dias: Pela sua obra e importante divulgação da língua e cultura portuguesa recebeu o grau de Comendador e Grande Oficial de Ordem do Infante D. Henrique e a Medalha de valor e Mérito da Secretaria de Estado da Emigração, do governo de Portugal. Nos Estados Unidos foi alvo de várias homenagens e condecorações.

Uma citação feita na contracapa de Crónicas Americanas é significativa da visão, índole e acção de Eduardo Mayone Dias. O seu vizinho Freddie, indignado com a existência de uma cerca imposta por disposições camarárias entre a sua casa e a de Mayone Dias, largou a dissertar sobre o mundo por que ansiava, mundo onde não houvesse cercas, onde Deus estivesse em toda a parte, onde todos fossem como irmãos tolerantes e caritativos.

Crónicas Americanas, pela sua observação crítica, ajustada e englobante, poderá ser o primeiro Manual de Informação para quem emigre para os Estados Unidos e um bom guia turístico para todos aqueles que pretendam pisar as muitas terras por onde passou Eduardo Mayone Dias. É ainda memorabília preciosa para quem seguiu trilhos semelhantes.


por : Irene Maria F. Blayer - Lélia Pereira Nunes
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2014-03-01 15:43:18

Eugénio Lisboa – mais vívidas memórias Onésimo Teotónio Almeida

Eugénio Lisboa – mais vívidas memóriasOnésimo Teotónio Almeida

Eugénio Lisboa – mais vívidas memórias


Voltei a ser apanhado pela leitura do novo volume de Fabula Acta Est, o III das memórias laurentinas de Eugénio Lisboa (repito aqui para os mais novos uma explicação que já dei na minha recensão ao primeiro volume: ‘laurentinas’ é um arcaísmo. Lourenço Marques era o antigo nome de Maputo. Eugénio Lisboa nasceu em Lourenço Marques e não em Maputo, daí que faça perfeito sentido indicar aquele nome como o da sua cidade natal. Uma questão de rigor cronológico. E de coerência também).
Depois daquela primeira magnífica viagem pela Lourenço Marques da sua infância e adolescência, Eugénio Lisboa optou por saltar para os anos de 1955 a 1976 e, sem quebrar o intenso ritmo a que submete o leitor, leva-o aos anos de maturação política, dele e da sua geração, num Moçambique prestes a desligar-se do império para fazer a sua caminhada independente.
É sempre a voz de Eugénio Lisboa, clara e preclara, forte e sem peias, chamando as coisas pelos seus próprios nomes, que nos acompanha neste percurso de 500 páginas e onze [vinte e um] anos. Sabe bem ler essa narrativa contra o pano de fundo que a nossa memória guarda das notícias que sobre Moçambique eram veiculadas pela comunicação social, e apercebermo-nos de como se desenrolava de facto, por detrás da fachada oficial ou oficiosa, tudo aquilo que depois se veio a saber. Eugénio Lisboa viaja pelos anos dando a conhecer ao leitor um universo especial, obviamente o de uma minoria particularmente culta, mas que em Moçambique nem foi assim tão minoria, se atentarmos na plêiade de nomes que mais frequentemente ressaltam nas páginas do livro por se cruzarem na vida do autor: Maria de Lourdes Cortez, José Craveirinha, Reinaldo Ferreira, António de Figueiredo, Ascêncio Freitas, Luís Bernardo Howana, Rui Knopfli, Alberto de Lacerda, Virgílio de Lemos, Alfredo Margarido[eliminar], Hermínio Martins, António Quadros (pintor), Glória de Sant’Ana, Noémia de Sousa, são só alguns exemplos. E claro que havia outra gente interveniente e activa nessa Lourenço Marques que produziu uma notável elite ainda hoje marcante na cultura portuguesa. Não se trata de modo nenhum de uma história intelectual do período mas tão só de uma “crónica dos anos da peste” (para roubar o título a um livro de Eugénio que, por sinal, lhe foi oferecido por Rui Knopfli), embora o termo “crónica” não capte devidamente a intensidade dinâmica que infiltra a narrativa e a transporta para um patamar quase fílmico onde as imagens se sobrepõem incessantemente, acumulando tensão e colando à tela a atenção do espectador. Nesse sentido, o livro funciona como um romance à clef, mas cujos enredo e desfecho são antecipadamente conhecidos do leitor, apanhado este pela avidez de conhecer os meandros do caso particular do autor, de como ele viveu a experiência da independência de Moçambique, a descolonização e a partida para a pátria que não era sua, porque essa ficara na Lourenço Marques que o tempo enterrou. Por isso as oitenta páginas da última parte do livro atingem um ritmo e uma densidade dramática empolgantes. São páginas fortes, duras, relatadas com contensão, sem arroubos demagógicos nem laivos de tragédia, mas também sem rodeios nem subterfúgios politicamente correctos. Os leitores de Eugénio Lisboa conhecem-lhe bem o estilo e não ficarão surpreendidos com a transparência da linguagem; familiarizados que estão com a sua prosa certeira, poderão agora deleitar-se com esta oferta de uma narrativa de grande fôlego, de um quase-romance.
Sem ter aparentemente tido a pretensão de escrever uma história cultural de Moçambique, ou nem sequer a sua própria biografia intelectual, Eugénio deixa esboçado nos seus contornos o seu próprio universo ideológico e literário. As apetitosas citações e referências pescadas em quilométricas leituras, com que EL profusamente condimenta e salpica as suas crónicas e ensaios, dão aqui lugar a uma sequência interminável de factos servidos por uma memória portentosa, como se eles fossem demasiados para o espaço e tempo de que dispõe. Voraz leitor e amante da grande literatura, Eugénio viveu no longínquo hemisfério sul de ouvido e olhar atentos ao norte, aonde ia regularmente abastecer-se. Nestas páginas apenas ressaltam, incontrolada e inevitavelmente, por aqui e por ali, alusões aos seus autores de cabeceira e coração, aqueles que formaram o ensaísta, o cronista e o homem que hoje tanto apreciamos, habituados que estamos a vê-lo navegar com um imenso à-vontade e uma familiaridade impressionante (agora diz-se impressiva em tradução do inglês) pelas estantes do cânone ocidental. EL deve muito aos seus autores-do-peito e gosta de reconhecê-los e publicitá-los a ver se atrai compinchas que lhe queiram fazer companhia. A constelação é vasta e brilhante: Montherlant e José Régio (tinha de referi-los primeiro), Voltaire, Swift, Anatole France, Gide, Proust, Valéry, Thomas Mann, Laclos, Bertrand Russell, Pessoa, Stendhal, Jean Anouilh, Gide, Flaubert, Dostoievsky, Tolstoi, Turgueney, George Eliot, Balzac, Mishima, Marcel Aymé, Eça, T. S. Eliot, Shakespeare… e a lista continuaria mas já basta para um mapeamento de estrelas que dão bem para configurar um universo.
As farpas que habitualmente lhe saltam das linhas na sua escrita são aqui quase sempre dirigidas ao status quo politico e não aos correligionários das letras, como se Eugénio estivesse mais interessado em evocar boas memórias e esquecer ou ignorar tricas inevitáveis num qualquer percurso. Uma que outra vez, a verve não perdoa, como naquele desvio provocado por uma menção de Gyorgy Lukacs - e lá vem a faca afiada – “que, durante algum tempo, se aninhou, quentinho, no sovaco do Eduardo Prado Coelho […] antes de [este] se desgostar dos seus amores juvenis e passar a mudar de “maître-à-penser”, como quem muda de camisa (e sempre sem dor)” (pp. 393-4).
Estamos perante uma obra de envergadura que vem desassombradamente marcar o ponto na nossa literatura memorialista, para a qual de repente parece termos despertado. Um livro vertical e nobre, frontal e humano, demasiado humano. Se tivesse de seleccionar um exemplo demonstrativo da justeza dos adjectivos que derramei sobre a frase anterior, creio que escolheria esta passagem: “[…] esta estúpida lei [da Frelimo] das nacionalidades, no seu fundamentalismo primário e demagógico, ignorava uma realidade: para muitos europeus nascidos em África, como eu, o nosso universo cultural (e este engloba afectos) era mesmo duplo: éramos profundamente europeus e profundamente africanos. Mas precisamente: éramos portugueses e moçambicanos. Nenhuma dessas vivências profundas podia ser irradicada por decreto. Dessem-me ou não me dessem passaporte, era moçambicano; dessem-me ou não me dessem passaporte, era português. O que eu era, em profundidade, era o que eu sentia e não o que qualquer burocrata vestido de político efémero (e iletrado) decidisse que eu era. E ainda hoje penso assim. Quem decide a minha nacionalidade autêntica sou eu e mais ninguém.” (p. 465).
Quem escreve assim sabe da língua e da vida. Se ainda por cima sabe de literatura e nos faz, à distância, viver vicariamente páginas de uma experiência rica, enriquece a literatura, como os leitores enriquecem com o capital que os bons livros geram.


Onésimo Teotónio Almeida


por : Lélia Pereira Nunes
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2014-02-21 13:53:25

Uma estátua (com resplendor) para Natália Correia - nota de um quase-diário Onésimo T.Almeida



Uma estátua (com resplendor) para Natália Correia	- nota de um quase-diário Onésimo T.Almeida

Uma estátua (com resplendor) para Natália Correia
- nota de um quase-diário



Ontem à noite não resisti e atirei-me à leitura da segunda metade de O Botequim da Natália.
À medida que o livro avança e avança a idade da Natália, tudo vai ficando mais sombrio e menos divertido. A atitude adoradora e de desculpa-tudo por parte do autor, Fernando DaCosta, não o impede de uma que outra vez reconhecer aquilo que todos conhecemos na última fase da vida da Natália. Cito dele: “Viajar com a Natália Correia era uma aventura ora apaixonante, ora desesperante, tais os imprevistos, os incidentes, os caprichos, os temores, que a possuíam.” (p. 238) Noutra passagem, porque a Natália não tinha carro de luxo mas exigia um quando a convidavam a ir falar aqui ou ali, conta Dacosta: ”Uma tarde, no Norte, puseram-lhe à disposição um Panda para a transportar para Lisboa. Fez um berreiro medonho só se calando quando um motorista fardado, de boné na mão, lhe abriu a porta de um luxuoso (alugado) Mercedes de casamentos.” (p. 242)
Nas sessenta páginas anteriores, eu não encontrara ainda sinais claros de que Dacosta via ou muito menos se incomodava com certas atitudes da sua adorada deusa. Fiquei deveras boquiaberto com a sua capacidade de aceitação de tudo o que vinha contando. Veja-se este exemplo, que transcrevo por inteiro:
“Necessitando de dar um jantar de cerimónia em sua casa, Natália Correia pediu a criada a uma amiga emprestada (sic). A mulher foi, mas a sua cadela de estimação (a Paloma) embirrou com a intrusa e mordeu-a numa perna com tal fúria que ela teve de ser levada às urgências de S. José.
Aí os médicos quiseram saber se o animal estava vacinado. Contactada pelo telefone, Natália exclamou: “Sei lá, mas que interesse tem isso?”
â€œÉ que a rapariga pode correr riscos, se não se souber…”, responderam-lhe.
“E a cadelinha?”, interrompeu Natália. “A cadelinha é que me preocupa, já me inspirou um poema e uma crónica, por sinal muito interessante, agora a criada não, nunca me inspirou nada, nem um verso!” (p. 182)
A transcrição está verbatim. E termina sem o mais leve comentário do hagiógrafo.
O episódio no Porto, aquando do colóquio organizado pela Casa dos Açores do Norte (p. 186), está deficientemente narrado e falta-lhe todo o contexto. O Fernando Dacosta não estava lá. Eu estava. A Natália andava furiosíssima comigo e nem queria ir ao Porto - uma longa estória que um dia hei-de pôr por escrito. Nada a ver com a versão que corre por aí segundo a qual eu lhe teria dado um pontapé. O Eduíno de Jesus foi testemunha de todo o caso, tal como eu aliás fui testemunha do incidente que o envolve a ele, no hotel do Porto, e que Dacosta recebeu distorcido via António Valdemar, que também não estava lá. A Natália exigiu dois quartos e o hotel não tinha mais nenhum disponível além do que estava reservado para a escritora. É verdade que quiseram pôr o Eduíno num outro hotel e o Eduíno sentiu-se (e justamente) ofendido. Fui eu que fui ter com a gerência e disse: O Eduíno não sai daqui. Se sair, sairei eu e mais um grupo de gente. Arranjem para a Natália um segundo quarto onde quiserem, ou então o Dórdio que vá dormir noutro hotel. E o Eduíno ficou, ao contrário do que afirma Dacosta.
Há mais deslizes. Dacosta cita a Natália a prometer-lhe “Havemos de ir à (sic) Terra Nostra” (p. 252), referindo-se ao parque Terra Nostra das Furnas e a que, aliás, chama “bosque” (p. 250). Fala no “culto” dos romeiros (p. 252), quando em S. Miguel é sempre referido como “tradição”, não se tratando propriamente de um culto. Refere o bispo D. Aurélio Granada como “D. Alberto Granado” (p. 258). E diz que “o avião espera na pista de Angra” (p. 257), cidade onde só há porto; o aeroporto fica nas Lajes. Mas há mais (claro que falo dos casos e realidades que conheço): a propósito da viagem da Natália aos EUA, que deu origem ao livro Descobri Que Era Europeia, sobre o qual escrevi um ensaio publicado em Natália Correia, A Festa da Escrita, coordenado pela Maria Fernanda Abreu e mais duas colegas, (Colibri, 2010), que por sinal não consta na lista das fontes consultadas por Dacosta, há no seu livro um episódio narrado em dois parágrafos (p. 184) e banhado de erros grosseiros. Uma estória que se passou em Nova Iorque é contada como tendo ocorrido em Marrocos. Passou-se, de facto, com João Hall Themido, mas ele nessa altura não era embaixador, pois só o foi vinte anos depois, e em Washington. O caso deu-se quando ele era um jovem diplomata e trabalhava no Consulado de Nova Iorque. Além disso, a estória está mal contada e a frase de Natália foi diferente. Para não falar de ter sido mesmo durante essa viagem que ela abandonou o marido americano e não “meses mais tarde”, como no livro vem dito. Mas contei já isso noutro lado ("A autodescoberta de uma europeia na América - ou quando Natália Correia descobriu que era Natália", pp. 35-51 do acima referido volume).

Por estas e por outras se vê que, se O Botequim da Liberdade consegue de facto retratar a Natália, não é de confiança em termos de factos, dados, pormenores. As citações da sua protagonista são quase todas reproduzidas de cor, recriadas a grande distância. Circula na NET uma série delas sobre os nossos tempos de hoje com o título “Premonições de Natália Correia”. Quando as li pela primeira vez comentei para quem mas enviou: O núcleo duro das ideias é Natália, porém a roupagem já é muito linguagem de Dacosta, toda bem dos nossos dias.
Aliás, o autor avisa numa “Nota final”:
“A linguagem de Natália ganhava espessuras difíceis de apreender por não inciados, pelo que a reproduzimos, por vezes, em discurso indirecto, mais clarificador e descodificador do seu pensamento.” (p. 324).
Um livro cheio de méritos por conseguir pintar a Natália bem ao vivo e viva como ela era. Não se trata de uma biografia, nada a ver com uma obra do género de Antero de Quental. Subsídios para uma biografia que J. Bruno Carreiro exemplarmente escreveu sobre Antero. Também este adorava o seu ídolo, mas era seguríssimo nos factos narrados, sempre escrupulosamente investigados.
Enfim, uma estátua para Natália, do estilo que ela gostaria que alguém lhe fizesse. Porque a diva também detestava factos e ninharias académicas, como sempre o demonstrou nos seus ensaios. Nela as ideias voavam soltas como as pombas, mesmo que fosse a Pomba do Espírito Santo, que ela inventou ser feminina. Se estava na sua cabeça, isso bastava para ser real. Transformava-se em paixão. E, segundo ela, o que o mundo precisava era mesmo de paixão. Essa Natália, ou pelo menos esse lado da estátua, é o que fica captado – e calorosamente - em O Botequim da Liberdade.


Onésimo Teotónio Almeida


por : Lélia Pereira Nunes
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2014-08-01 18:51:49

Physiology - George Monteiro



Physiology  - George Monteiro

(Vincent van Gogh, 1853-1890)






Physiology


While the sonnet is friendly to the tragic
situations of saudade, the haiku is not,
for such spasms of feeling depend from
a fact: it is not that people suffer their
saudades (they do) but it is that destiny
decrees that they will suffer them time
and time again. If a minha patria é a
minha língua, saudade
is its pathology.


July 4, 2013











(This poem was first published in July 2013, Comunidades RTPcores)


George Monteiro is Professor Emeritus of English and Portuguese and Brazilian Studies, Brown University, and he continues as Adjunct Professor of Portuguese Studies at the same university. He served as Fulbright lecturer in American Literature in Brazil--Sao Paulo and Bahia--Ecuador and Argentina; and as Visiting Professor in UFMG in Belo Horizonte. In 2007 he served as Helio and Amelia Pedroso / Luso-American Foundation Professor of Portuguese, University of Massachusetts Dartmouth. Among his recent books are Stephen Crane's Blue Badge of Courage, Fernando Pessoa and Nineteenth-Century Anglo-American Literature, The Presence of Pessoa, The Presence of Camões, and Conversations with Elizabeth Bishop and Critical Essays on Ernest Hemingway's A Farewell to Arms. Among his translations are Iberian Poems by Miguel Torga, A Man Smiles at Death with Half a Face by José Rodrigues Miguéis, Self-Analysis and Thirty Other Poems by Fernando Pessoa, and In Crete, with the Minotaur, and Other Poems by Jorge de Sena. He has also published two collections of poems, The Coffee Exchange and Double Weaver's Knot.





IMAGE: Vincent van Gogh, Sower at Sunset (1888)







por : Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes
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2014-05-15 22:22:42

DANTE, CARIOCA STYLE - George Monteiro





Vinicius de Moraes e a Garota de Ipanema,1962.

DANTE, CARIOCA STYLE - George Monteiro




DANTE, CARIOCA STYLE

George Monteiro

 

One of the more touching sonnets in Dante's La Vita Nuova expresses the poet's thoughts as he witnesses the fashion of the way his elusive "mia donna" makes her way, gracefully and independently, down the street before him:

Tanto gentile e tanto onesta pare

            La donna mia quand'ella altrui saluta

            Ch'ogne lingua deven tremando muta,

            E li occhi no l'ardiscon di guardare.

            Ella si va, sentendosi laudare,

            Benignamente d'umiltà vestuta;

            E par che sia una cosa venuta

            Da cielo in terra a miracol mostrare.

            Mostrasi sì piacente a chi la mira,

            Che dà per li occhi una dolcezza al core,

            Che entender no la può chi no la prova;

E par che de la sua labbia si mova

            Un spirito soave pien d'amore;  

            Che va dicendo a l'anima: "Sospira."

My point is simple, but for those who know the twentieth-century Brazilian poet-songwriter Vinicius de Moraes only as a popular songwriter, and not the cultured, learned, modernist poet that he was in the earlier phase of his artistic career, it may come as a surprise.  Dante's 1265 lyric-the poet's soulful take on his "donna mia" as she moves before him-is a prototype for two lyrics by Vinícius-a less-than-sweetly-depressive samba "Quando tu passas por mim" and the celebrated song "A Garota de Ipanema."  In all three lyrics-Vinicius' two and the Dantean prototype-the image of the woman (whose own story remains a mystery to us) as she passes before the man serves as an emblem to each poet of the passage of time itself. 

"Quando tu passas por mim" (1953), Vinicius' first samba, written with Antonio Maria, runs:

Quando tu passas por mim

Por mim passam saudades cruéis

Passam saudades de um tempo

Em que a vida eu vivia à teus pés

Quando tu passas por mim

Passa o tempo e me leva para trás

Leva-me a um tempo sem fim

A um amar onde o amor foi demais

E eu que só fiz te adorar

E de tanto te amar penei mágoas sem fim

Hoje nem olho para trás

Quando tu passas por mim

It is possible, I think, at least in retrospect, to entertain the idea that the vengeful lyrics of this first samba morphed into Vinicius' more delicately mournful song "A Garota de Ipanema" (1962).

The original lyrics of this enormously popular song, written with Antonio Carlos "Tom" Jobim (1927-94), read:

Olha, que coisa mais linda,

Mais cheia de graça

É ela, a menina 

Que vem e que passa

Num doce balanço

Caminho do mar...

Moça do corpo dourado,

Do sol de Ipanema,

O seu balançado

É mais que um poema

É a coisa mais linda

Que eu já vi passar...

Ah, porque estou tão sozinho

Ah, por que tudo é tão triste

Ah, a beleza que existe

A beleza que não é só minha

Que também passa sozinha...

Ah, se ela soubesse

Que quando ela passa,

O mundo sorrindo

Se enche de graça

E fica mais lindo

Por causa do amor...[i]

It is pleasing to think that Vinicius himself was aware of the Dantean predecessor to his own tender tribute to the lovely girl who so touches him as she walks to the beach.[ii]



 

[i] O Operário em Construção e Outros Poemas, ed. Sérgio Buarque de Holanda [Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979], p. 108.

[ii] In Elizabeth Bishop in Brazil and After: A Poetic Career Transformed (Jefferson, North Carolina, and London: McFarland, 2012), I discuss how Bishop's "Pink Dog," a posthumously published poem critical of Rio de Janeiro, can be traced back to Dante by way of Vinícius' "A Garota de Ipanema" (pp. 79-80).


Foto 2. - Nesta esquina e neste bar nasceu a Garota de Ipanema. Hoje,rua Vinicius de Moraes.

________________________________

George Monteiro is Professor Emeritus of English and Portuguese and Brazilian Studies, Brown University, and he continues as Adjunct Professor of Portuguese Studies at the same university. He served as Fulbright lecturer in American Literature in Brazil--Sao Paulo and Bahia--Ecuador and Argentina; and as Visiting Professor in UFMG in Belo Horizonte. In 2007 he served as Helio and Amelia Pedroso / Luso-American Foundation Professor of Portuguese, University of Massachusetts Dartmouth. Among his recent books are Stephen Crane's Blue Badge of Courage, Fernando Pessoa and Nineteenth-Century Anglo-American Literature, The Presence of Pessoa, The Presence of Camões, and Conversations with Elizabeth Bishop and Critical Essays on Ernest Hemingway's A Farewell to Arms. Among his translations are Iberian Poems by Miguel Torga, A Man Smiles at Death with Half a Face by José Rodrigues Miguéis, Self-Analysis and Thirty Other Poems by Fernando Pessoa, and In Crete, with the Minotaur, and Other Poems by Jorge de Sena. He has also published two collections of poems, The Coffee Exchange and Double Weaver's Knot.

 

 

 

This posting was first  published here on February 15, 2013.

 

 



por : Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes
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2014-06-26 13:08:58

SEMANTICS - Scenes from an unpublished novel- Julian Silva





SEMANTICS
Scenes from an unpublished novel

by

Julian Silva

 

 "You gotta say it fast. Real fast. Or it isn't funny."

Meeting in mid-row, the three girls have converged on their hapless victim. Their eyes bright with mockery, their faces soiled with a good deal more than malice. Their fingers are stained red with currant juice and their knees bound with pads of quilting to cushion them against the sun-baked earth. Knotted at all four corners, red bandanas offer scant protection from the intense sun. Or the perpetual rain of sulfur with which the currant bushes have been dusted against the mildew and now cakes in every sweaty crease to form a yellow paste. He knows only one of them by name. Geraldine Freitas. The other two, Spaniards, live in hovels somewhere out near the salt flats.

"Tell me why it's funny."

 "Say it faster an' you'll see."

 "African nigger, African nigger, African -"

 "Faster!"

 "Africanigger, a fuckinigger -"

Bent over, doubled with glee, the girls scream with laughter.

Squinting through tear-blurred eyes, the ten-year-old Arab Ramos, né Vasco, studies them. He knows full well they are trying to make a fool of him, and what is worse, more than likely succeeding.

 "I still don't get it." He is prepared to compound his shame as the price for knowledge. "What's so funny?"

 "Try again."

So he tries again, his tongue moving so fast the words slur meaninglessly:           

 "Africanigger, a fuckinigger, a fuckin -"

Disaster hounds him. With all the surprise of a Jack-in-the-box, his father's head pops up from behind the next row, a craggy menace to more than himself. Ducking and scampering among the currant bushes, the three girls vanish in a cloud of sulfur.

His blush convicts him before he can even find his voice.

 "I got almost a crateful." He holds up the crimson evidence for his defense like a casket of rubies glittering in the blinding June sunlight. Currants always seem to ripen the hottest week of the year and he hates picking them more than he hates any of the other task forced upon him by his stern mother, who is determined to teach him and his brother "the value of a dollar." As though it were one of life's immutable absolutes. The key to survival and the crowning proof of every success.

 "And they aren't mashed either."

He has taken recently to pronouncing the final word with a hard "i" for the very good reason no one else in San Oriel pronounces it that way. In the present circumstances the affectation assumes the guise of insolence, which further incenses his father.

 "Get yourself home." There is menace in the voice, an undeniable threat in the eyes. "And you'll not leave till I get there. Hear?"

 "Good!" He sniffs back a rush of tears. Though "home," as far as he is concerned is now with his

recently-widowed grandmother, he knows that is not the home his father means. "I'm sick'n'tired

of picking these stinking old currants anyway."

He ducks before the sudden rush of his father's hand. He might have spared himself the effort. Gruff as he is, his father seldom hits him. But when he does the act is sudden, violent and painful.

Halted in mid-swing the hand hovering over him is large and ominously thick. It fascinates Arab like no other part of his father's anatomy and he studies it now with hypnotic intensity. Despite appearances to the contrary, it is capable of the most delicate workmanship. Far finer than anything his mother has ever accomplished with her needle. Tying minuscule knots on the rigging of the ship models that are his passion and his chief refuge from all familial concerns, and which, his son fully understands (and oddly without resentment)  play a far more important role in his father's affections than his children. Especially since the death of his own father, the management of whose estate has now burdened the hapless history professor with two jobs, neither of which is particularly remunerative.

 "One more word out of you, young man, and you'll get slapped. Right here. In front of everyone."

The young boy bristles at the affront. He cannot bear to lose face before these - since he is forbidden to call them "peasants," as they so clearly are (for the Ramoses are New Deal Democrats and believers in a literal democracy of social equality) he must content himself with "morons." And they are morons. Cruddy, lice-covered morons. Though he knows well enough not at the present moment (still within striking distance of that all-powerful hand) to give voice to his indignation.

It is the mystery that infuriates him far more than the injustice. He wouldn't even mind, sometimes, being punished, if they would only explain why he is being punished. A spanking is a small price to pay for knowledge. And more than anything else, he longs for knowledge. To know just about everything there is to know. While here, hidden only from him, there is a great conspiracy of secrets which everyone else in the entire world seems to be in on. Even stupid old Geraldine Freitas, who can barely spell her own name. And that is insufferable.

 "What kinda nigger?" A softly taunting voice rises from behind a sulfurous bush.

He sticks out his tongue as far as it will go and gives a noisy raspberry.

 "A Spanish nigger. That's what kind."

 "Black Portagee," comes the instant reply.

He sniffs, head held high like the prince he knows himself to be, as he too is now lost in a cloud of sulfur wafting westerly in the direction of his home. And his waiting mother.

*

"I don't understand."

His mother is speaking. Olive-skinned, she has the face of a Renaissance Madonna, an almost perfect oval filled now with the ineffable suffering of Our Lady of Sorrows. A corsage of silver swords might more properly have sprouted from her left breast than the damp, stained apron fashioned from the cheapest cotton print that presently adorns it.

 "I just don't understand. From your brother, yes. From Tony we might have expected as much. But you!"

It is the attack of all attacks he most hates - this setting him up on some kind of pedestal only so that he can then be deftly knocked off. The would-be saint toppled from his marble perch and garroted with his own halo. For, like every good Catholic, he fully intends someday to become a saint. But unlike most he also intends to become a priest. Possibly, even, one day, Pope. The first American Pope. Vasco the First he'll be, since he'll obviously have to use his real name in such a contingency. And for once he likes the sound of it as well as the prospective glory. Vasco the First in full regalia with crown and crosier, borne aloft amidst the cheering throngs on the hefty shoulders of four of the handsomest of his very own Swiss guards. Every one of them well over six feet tall and as beautiful as a god.

*

 "You! You! You!" The word reverberates like the parodied vocative of a Victor Herbert operetta: "You! You! No one but yoooooo!"

 "But you!" Our Lady of Sorrows is all trembling anguish, a vibrating tuning fork, "You!"

He would much rather, after all, she slap him and get this prolonged scene over with. Quickly. Instead, to his consternation, she paces the room, wringing her hands, shaming him with her shocked incredulity. Far more baffled than repentant, he can only, with bowed head and flushed face, stare dumbly at the tips of his scuffed and dusty shoes.

Sometimes and, oh, with such baffling unpredictability! These minor offenses have a way of swelling into major crimes. He can always tell when she is really angry, when he has truly overstepped the outermost boundaries of her very limited indulgence. For the unpardonable he is never spanked. Never offered so simple an out as a momentary sting of his cheeks, upper or lower. Flushed eyes and a hurt far more personal than physical. At such moments she treats him as though he were guilty of some offense so filthy she can scarcely any longer bear to touch him for fear she may contaminate herself. For such crimes the only fit punishment is ostracism. From all family activities, and worse, far worse, from her good graces. It is she, then, who is usually closer to tears than he.

 "But from you," she continues, her voice limpid with betrayed trust, "we'd been led to expect so much more. And now you've shown us just how wrong we were...how wrong we were...how wrong we were..." Her voice seems to go on like a record stuck in its own groove.

 "If it's such an awful word," he humbly asks Our Lady of Sorrows, lifting his head just high enough to rest his gaze upon the corsage of quivering silver daggers - until the decisive moment, "why does Grandpa use it all the time?"

Gotcha! He thinks as his eyes rise to confront hers full on.

"Oh!" The shock registers like a slap on his mother's face. "When? When have you ever heard your grandfather use that word? When?"

 "Lots of times." He pinches his lips tight into a prim little purse, holding her gaze without flinching. He knows the crisis is over. As far as he is concerned, anyway. His grandfather is another matter; but his grandfather, as just about everyone who knows him already knows, can very well take care of himself.

"Lots and lots of times." It is a good as well as an honest defense.

His mother is clearly stunned."In front of you?"

His nod is ponderously solemn.

She goes pale with anger. For her son, she knows, despite his many and infuriating faults, is quite incapable of such a lie. Even to save his own skin.

 "Well, I don't care who uses it." Her righteous stance crumbles before his questioning gaze into so many mite-size shards. "Even your grandfather. If he's ever said it, then it was very wrong of him. Very, very wrong. Do you hear? And I shall certainly tell him so. This very afternoon. You can be sure of that."

She is the Avenging Angel now, armored in righteousness. "But that's no excuse for you, ever, ever again to use it. Do you hear me? Is that quite unmistakably clear? If I ever hear that that word has crossed your lips, I'll - well, you can be sure you'll get something you'll never forget. Is that perfectly clear?"

 "Yes." His voice no more than a whisper as he nods his acknowledgment of her ultimatum. His

grandfather's depravity has got him off lighter than he could ever have hoped.

Sins are to confess and shame for repentance, but poor Gramps. Yet he has long since got used to the idea that his Grandfather Woods is destined for hell. If nothing else his worldly success has doomed him. Riches and damnation, the Bible tells us, are long established partners. So hell must be peopled with Republicans. For Republicans are invariably rich and at the same time contemptuous of God's starving millions. If it is wrong to call those dirty, scruffy, lice-covered Spaniards in their shanty town out near the salt flats peasants, how much worse, then, is it to call those whose very skin advertises a former shame so great....

Julian Silva





Julian Silva is a fourth-generation Portuguese-American whose Azorean ancestors first settled in the San Francisco Bay Area in the 1870s. His novel, The Gunnysack Castle, was first published by Ohio Universiy Press in 1983. The second section of the Death of Mae Ramos, "Vasco and the Other" was originally published in 1979 in Writer's Forum 6, University of Colorado.
In 2007, Distant Music Two novels: Gunnysack Castle and The Death of Mae Ramos was published by Portuguese in the Americas Series, University of Massachusetts Dartmouth . Distant Music is the story of the Woods (anglicized Portuguese) and Ramos families and their descendants in California. In these narratives Julian Silva "celebrates not only the resilience of men and women confronted with failure but, even more important, he exposes the compromised morality of their achievement" (Portuguese in the Americas Series).



por : Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes
Tags : Canadá,E.U.A.,Brasil,Açores

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2014-04-21 03:04:04

The Blums in Exile: Scenes from an unpublished novel - Julian Silva









THE BLUMS IN EXILE

Scenes from an unpublished novel

by

Julian Silva

 

"You do not tonight expect French cuisine, I hope?" Claudine Blum greets Vasco Ramos, as she flips a most prosaic hamburger in a cast-iron frying pan.
      Dressed in honest black, rather than her customary navy blue, she has invited him to dinner for the first time in the two years they have known each other. Unlike her diamond-bedecked mother Vasco met earlier at the door, a handsome tanned woman in her late-forties dressed in formal French mourning veils for the husband she had for years done everything in her power to ignore, Claudine wears virtually no jewelry: a blue-enamel Cross of Lorraine on a thin gold chain about her neck, a political not  a religious statement, and the simplest of pearl earrings
      The Blums' flat has more than ever the air of a temporary bivouac. There are no rugs on the stained-oak floors. The furniture is nondescript. A hodgepodge of unmatched pieces scrounged from various apartment-house basements and sundry attics with no overriding spirit or personality to blend the incongruities: the bastard French chaise with the Philippine-bamboo easy chair or the overstuffed American sofa. Nor has any effort been made in the last two years to superimpose a personality. There are no pictures on the walls. No flowers. No bibelot. There is not so much as a pillow that gives evidence of ever having been crushed with affection.
       Disorder is rampant. Chairs are left where last used: next to a lamp with a cord too short to reach a central grouping and before a window where toenail clippings give evidence of a recent pedicure. A pair of red satin high heel shoes (certainly not Claudine's) lies on the floor before the sofa, an open purse on a blond, glass-topped coffee table alongside a coffee cup crusted with a crackle glaze of caramel sediment. It is the dishabille of those who have always had menials to pick up after them.
      Although he is awed by the drama of the family's recent history, something about the place and the Blums themselves chills him. Like the furniture, each member seems a separate, unrelated entity. All the parents of his other friends are simple in comparison. Even Jonny's impossible parents are more of a family and their violent tempers and alcoholic brawls ultimately less lethal than the Blums' exquisite decorum.
      Tall, balding, sharp-featured and languorously elegant, M. Blum, dressed at home always in a meal-spotted, floor-length, silk robe, was like a Comedie-Francaise diplomat: worldly, wry, cynical of all save his devotion to an ideal that had once been France. Preoccupied with the War and his own imminent death, he remained aloof from all household concerns, detached from everyone, particularly his wife, whom he treated always in the presence of strangers with excruciating politeness. A deference so extreme it might, perhaps, have been intended to be read as irony. He never raised his voice, never nagged, never complained. His kindness was a formal ritual, correct, often charming, but ultimately heartless. He lived only for France. And the son now fighting for that France. Philippe. An almost femininely beautiful Free French flyer based in London whose photograph in a tarnished silver frame is the sole personal touch in an otherwise soulless apartment.
      Obstinately, and apparently against considerable odds, M. Blum refused to die, keeping himself alive by force of will until the Paris he would never again see was liberated. Weekly he dragged his desiccated but proudly unbent body to the broadcasting studio to tape the messages that were later radioed to Occupied France in the name of the Free French. Until De Gaulle's vindication gave him at last the leisure and the will to die. Four days after the liberation of Paris he was quietly cremated and his ashes stored in a small pine box to be transported back to France for burial in Pere Lachaise.

                                                                           *

"Votre petit camarade de jeu, cheri," Mme. Blum called from the doorway. Then with her mourning veils thrown back off her still-tanned face and looking eerily like a bride in black, she bestowed on Vasco a smile as brilliant and as hard as her diamonds. Which, like Paris, have themselves only recently been liberated, in this instance from the security of a local bank vault
      She has both fascinated and terrified Vasco from the moment he first saw her open the door to their apartment two years before. It was a revelatory moment, in an instant bursting every cherished myth of motherhood. She was then also dressed in black, a skimpy two-piece bathing suit cut so low her navel was exposed with several inches to spare, her still elegant body shining like a piece of freshly polished Chippendale. Having just come in from sunbathing on the Marina Green and looking as though she gobbled up young men like him as appetizers, she made no effort to cover herself, but sat with seriously-tanned legs crossed on the arm of an overstuffed easy chair, speaking to him in a language she surely knew he did not understand. She took out a cigarette, and looking about for matches, smiled as he approached with a trembling flame.
      "Charmant," she said.
      He understood that, and something more, which her smile alone said.
      "Mais, il est joli," she continued, speaking to Claudine but keeping her dark eyes fixed on him.
      Then Claudine entered, standing expressionless before her shamelessly worldly mother as she spoke:
      "Oui. Mais il est mon joli. "
      He saw Claudine then, only for a moment, as she must have seemed to others: a slightly chubby adolescent with fine skin, superb bones partially hidden by too much flesh. The raw material for a beauty which might someday be more than just the promise it now was. Unlike her mother, Claudine never sunbathed, but shielded her creamy-white skin at all times, even on the beach, from the naked sun. Not once had he seen her in a bathing suit or a pair of shorts.
      "I'm sorry," Vasco stammered at the door as he arrived for dinner. "About your husband."
      Without a word, Mme. Blum nodded somberly, then once again smiling, she stepped aside to let him pass. She made no effort to dim the radiance of her smile with her mourning veils or, except for the formal but silent acknowledgement of his equally formal sympathy, so much as a pretense of sorrow. Her husband was dead, her face said in a language that needed no translator, but Paris was free. As she was herself once again free, liberated from the bondage of an arranged and mostly loveless marriage. In less than two weeks she would be in New York to await the sailing of the first ship carrying non-military passengers to France.

*

      "You do not tonight expect French cuisine, I hope?"
      "Hello." Blushing with pleasure, Vasco peers into the pan, the contents of which are hardly tempting enough to hold his interest for long. Then he looks at her. In the two years he has known her, virtually all the baby fat has disappeared and her beauty has become considerably more than promise. "You look lovely tonight," he says, though her beauty ironically resembles nothing so much as a Nazi poster extolling the glories of blond Aryan pulchritude. For her face conjures up images of Alpine meadows, creamy rich sauces, pink Austrian cheeks and tinkling brass cowbells rather than Parisian chic. Marlene Dietrich is the Platonic ideal upon which it has been modeled, with perfectly sculpted cheekbones, a strong, distinctive jawline, and heavily-lidded, not-quite-blue eyes.    
      "Why tonight, especially? Lovely at the stove? Me? Or are you just practicing your sweet lies?" Her teasing eyes challenge rather than mock.
      "Why should I lie? If you didn't look lovely, I'd say your dress looked great. Or something else. That hamburger, for instance."
      He hopes it is not going to be another evening of cruel game-playing.
      The doorbell rings.
      "Bon soir, mes enfants," Mme. Blum calls from the hallway.
      "Bon soir, Mamma." Claudine's reply is scarcely loud enough to carry beyond the kitchen.
      The door slams shut. They are alone.
      "Your mother looks impressive in mourning," he ventures.
      "Yes, doesn't she? Always tres chic, Mamma." The voice is so dryly non-committal it is all he needs to understand more, perhaps, than she intends. "0h, cheri, forgive me. I forgot." She smiles as she once again flips the hamburger patties, which he has realized for some time are already overcooked. "Tonight is Friday and you do not eat meat on Friday."
      The forgetting, he knew, was a lie. She meant to test him.
      "I'd eat anything you cooked. Any day of the week."
      She laughs, quite unaffectedly for a change, like any ordinary young girl.
      "And how you would suffer! Before I left France I did not know how to boil water. But will you have to go and confess yourself to a priest? Poor Arabee."  She is the only one outside his family permitted to use this variation of his strange nickname.
      "Yes, I'll have to confess. Particularly since you didn't give me the option of forgetting it's Friday."
      She laughs again. "I will be your sin. Like the name of a cheap perfume. My Sin. But suppose Lenore drives us off a cliff and we all die. Will you then have to go to hell? Just for me?"
      This at least is a game he can play without effort. Or hurt.
      "Yes, I suppose so. But you wouldn't want me to go alone, would you? So we can keep each other company."
      "But must I go to hell too for eating meat? Even when I am not Catholic?"
      "Not for eating meat. Just for feeding it to me. It wouldn't be fair to let me suffer all alone, would it? Especially if you are to blame. And God, we must assume, is fair. If nothing else."
      "Ah, God," she sighs, the teasing smile suddenly gone from her voice. "It is such a big word for so few letters. Far too big for my tiny head. So we will talk about something else."

*

Prejudiced though he may be, he is forced to admit Claudine's dinner adds no fresh luster to the glory of France. Tall, over-weight, thick-ankled Lenore, the only friend with a car, and every bit as important, as a government worker, with enough gasoline to keep that car running, is never late and she is due to call for them at eight. They are going to a farewell party somewhere out near St. Francis Woods and they may never again be alone together. It is now or never, and he cannot live with the prospect of that never. As a delaying tactic, Claudine is wasting precious minutes with her toilet.
      "Can't you just sit with me for a minute?" He is standing behind her at the mirror and trying not to look at his own reflection. To be reminded yet again how impossibly young he is. "Before Lenore comes. You know she's always early."
      "But I haven't finished my hair."
      She is playing coy, holding a comb indecisively in the air above her perfectly-coiffed hair.
      "Leave it. Your hair looks fine." He grabs the comb from her hand, throws it onto the vanity table and draws her to the couch with him.
       "My, how forceful you are. Suddenly."
      Her smile is a mocking challenge he accepts. He embraces her, trapping her hands against his chest. She resists, pressing against him to free herself. 
      "No. It is too late. What good would it do? Only make you sadder."
      "Only me?"
      He holds her tighter, muffling her protest with his lips. Miraculously their noses do not bump. The prospect had terrified him, for laughter would have proved fatal. Now that he has begun, he will not stop until she answers him, kiss for kiss. He can feel the squirming warm body pressed against his gradually relax, while her hands cease to press with any conviction. As he draws her closer, the hands soon slip up and over, about his neck. He kisses her on the neck, the cheek, and that tenderest of spots behind the ear, before once again finding her lips. It is a technique garnered from assiduous study of Charles Boyer (he has already seen Mayerling six times) and again, miraculously, the stratagem works. Not only has she ceased to struggle, she is actually clinging to him. Her lips part, her tongue slips into his mouth. He sucks on it, drawing it deeper into him, his bliss paradoxically blemished only by its physical manifestation uncomfortably trapped in the rigorous bind of his Jockey shorts. No sooner has he achieved his object, than the doorbell rings. A loud and ugly buzz. Like static interrupting a short-wave radio broadcast.
      Stunned, they part, their eyes dazed, a silly sad smile on his face.
      "Merde," Claudine says, and he understands that too. "Damn the fat old cow."
      He will never, he thinks, understand the workings of the female mind, yet they are the sweetest words he has ever heard cross her pretty, pouting lips.






Julian Silva
is a fourth-generation Portuguese-American whose Azorean ancestors first settled in the San Francisco Bay Area in the 1870s. His novel, The Gunnysack Castle, was first published by Ohio Universiy Press in 1983. The second section of the Death of Mae Ramos, "Vasco and the Other" was originally published in 1979 in Writer's Forum 6, University of Colorado.
In 2007, Distant Music Two novels: Gunnysack Castle and The Death of Mae Ramos was published by Portuguese in the Americas Series, University of Massachusetts Dartmouth . Distant Music is the story of the Woods (anglicized Portuguese) and Ramos families and their descendants in California. In these narratives Julian Silva "celebrates not only the resilience of men and women confronted with failure but, even more important, he exposes the compromised morality of their achievement" (Portuguese in the Americas Series).

 

 

 



por : Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes
Tags : Canadá,E.U.A.,Brasil,Açores

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Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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