Domingo, 21 de Setembro de 2014
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Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2012-06-24 21:41:31

Saída: Fantasia e (é) Realidade ou Treze Textos Surreais** Salim Miguel e Tércio da Gama



A Parceria de dois grandes artistas catarinenses foi consagrada com o lançamento do livro Fantasia e (é) Realidade ou Treze Textos Surreais, do escritor Salim Miguel,ilustrado pelo artista Tercio da Gama.
Um belíssimo encontro da pena consagrada do maior ficcionista catarinense e do pincel do renomado artista plástico,o ilhéu Tércio Gama.
O resultado desta união é uma obra que reúne treze contos de Salim Miguel que se desenrolam com um colorido intimista, com sabor de memórias tão suas, guardadas ou salvaguardadas no fundo do tempo. Treze contos ilustradas em preto e branco por Tércio da Gama num expressivo olhar pleno de significados que se debruça em minúcias inimagináveis. Fantasia? Realidade? Tatuagem de alma e memórias que emergem e falam por si.
Tal é a sintonia resultante desta feliz junção entre o escritor e o artista, que há mais de cinquenta anos partilham mundividências por esta Ilha de Santa Catarina. Não é exagero afirmar que, no desenho do conto, a pena e o pincel se encontram,se completam e juntos descrevem o universo mágico da ficção,da narrativa,da arte visual,do imaginário onde tudo é possível. Afinal,a Fantasia e (é) Realidade.
O livro publicado pela Editora da UNISUL, dirigida pelo jornalista Laudelino Sardá, apresenta um projeto gráfico inovador e de grande qualidade. A capa é criação de Jorge Luiz Miguel,neto do escritor. O texto de apresentação traz a assinatura da  escritora Eglê Malheiros,mulher e companheira de toda uma vida do escritor Salim Miguel.
Ao escritor Salim Miguel e ao artista Tércio da Gama os nossos parabéns pela saída desta obra que vem enriquecer a produção literária catarinense

Lélia Pereira Nunes
 Florianópolis,24 de Junho de 2012

Saída: Fantasia e (é) Realidade ou Treze Textos Surreais**Salim Miguel e Tércio  da Gama

Verdade e fantasia

Quando buscamos a fruição de uma obra de arte, somos movidos não apenas pelo desejo do prazer estético mas também (e às vezes sobretudo) pela necessidade de satisfazer a curiosidade que a vida, o mundo, os sentimentos nos causam, na tentativa constante de compreender e dar conta do real. Desde logo, não adianta negar, labor só parcialmente frutífero, pois quanto mais pensamos saber, e a prática é disso o melhor juiz, mais ficamos cientes do quanto não sabemos, parafraseando o filósofo.
As várias escolas literárias, filhas de seu tempo, tiveram e têm variada maneira de abordar a tragicomédia humana. Houve entre nós um tempo macabro em que se arrancavam das pessoas confissões verdadeiras ou não; sem analisar a triste parecença, muitos exigiam dos escritores, naqueles anos de chumbo da ditadura civil-militar, que só se alimentassem do real, deixando de lado a imaginação e o sonho, que nos incitam a andar. Hoje a obediência aos gêneros já não é exigência basal, e a história literária está cheia de exemplos.
É motivo de alegria este livro, em que os escritos de Salim Miguel (que cada vez mais permite a entrada do fantástico ou fantasioso em sua obra, em que o realismo prepondera) são enriquecidos com os trabalhos sensíveis e prenhes de significado de nosso excepcional artista Tércio da Gama. Os textos são a prova provada de que ter aprendido com a vida não o impede de imaginá-la e sonhá-la sempre mais fraterna e valiosa.

Eglê Malheiros

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Crédito Foto: Paulo Sérgio Miguel



por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Açores,Brasil,Canadá

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2012-06-24 05:24:02

José Medeiros Ferreira – notas de rodapé para um balanço** Onésimo Teotónio Almeida

José Medeiros Ferreira – notas de rodapé para um balanço**Onésimo Teotónio Almeida

José Medeiros Ferreira – notas de rodapé para um balanço

José Medeiros Ferreira, o cidadão, o politico e o académico, foi recentemente homenageado na Livraria Culsete, em Setúbal. De entre o que me foi dado dizer, reproduzo aqui uns parágrafos.
Quem seguiu a trajectória politico-académica de Medeiros Ferreira deve reconhecer que uma das suas grandes virtudes foi, e é, a da capacidade de pensar por si e de se esquivar a filiações políticas cegas, e habitualmente comprometedoras. Medeiros Ferreira nunca foi lapa colada à pedra. Se quiséssemos associá-lo a uma criatura do mar açoriano seria a moreia, porque diz a sabedoria popular que até se escapa aos tentáculos do polvo. Nunca este consegue segurá-la a ponto de as suas ventosas se colarem à vítima para a sugar. A moreia escapa-se-lhe sempre ilesa, livre. Não o consentiu nunca Medeiros Ferreira, animal político por excelência, quintessência do zoon politikon aristotélico, com um instinto para intuir - que é ler por dentro - o facto político (veja-se o seu blogue e o prestígio que alcançou entre os leitores independentes). Teve sempre a cabeça no seu lugar, primou pela sua independência, que não é sinónimo de neutralidade. Nem sequer passou pelas veleidades juvenis dos recém-convertidos ao marxismo, dispostos a dar a alma ao Mestre e a essa Nova Igreja da altura que tinha o seu Vaticano em Moscovo. Não passou por aí porque até já mesmo nos Açores conseguira evadir-se ao peso pesado da própria Igreja. Ele tem, aliás, disso perfeita consciência quando escreve no Pátria Utópica, o precioso volume colectivo do Grupo de Genebra recentemente publicado: “Embora me considere um espírito robusto, essa sensação de pertencer a uma minoria nunca mais me largou.” (p.78) O que está mal colocado nesta frase é a adversativa “embora”, que deveria ser substituída pela causal “Porque” - porque Medeiros Ferreira tem um espírito robusto é que consegue ser, ou ter, um pensar independente.
Nesse registo, por sinal, estamos aqui em presença de uma dupla que tem essa faceta em comum e é por isso com imenso prazer que junto a eles me sento, para aplaudir esse espírito que os dois tão brilhantemente exibem. Tudo quanto se segue é por demais conhecido, mas é bom ser lembrado, como aliás o faz Antóno Barreto no supra citado livro colectivo do Grupo de Genebra. Diz este último da sua experiência na Assembleia Constituinte: “No grupo de Constituintes socialistas, depressa fiz “aliança” com um pequeno grupo que tentava remar contra a maré predominante radical e esquerdista. Esse incluía José Medeiros Ferreira, Mário Mesquita, Mário Sottomayor Cardia, Rui Feijó e Nuno Godinho de Matos.” (p. 222).
Claro que não existe um ser humano perfeito nem completamente isento e muitos de nós somos dominados por forças estranhas que poucos sabem debelar canalizando-as, como bem sabe fazer o nosso homenageado. As naturais tendências gregárias, de se ir com o bando, de fazer gang, de se entrar num grupo de malta, de se perder a razão na emoção total e desinibida, em Medeiros Ferreira estão todas canalizadas para esse tubo de escape que é o Benfica. Aí, porém, estamos já no capítulo da fé e o melhor é nem nele entrar. Podemos - e com razão – lamentar a escolha, todavia reconheçamos que qualquer ser humano tem direito aos seus momentos de colocar entre parêntesis a razão e o raciocínio e se deixar entregar completamente à irracionalidade. É um desvio importante para o nosso equilíbrio psicológico.
Concluirei com uma pequena nota: Medeiros Ferreira já me tinha dito há algum tempo que era ele o responsável pela criação da referência quase slogan da revolução de Abril – os três dd que resumem o programa de Abril. Os mais novos não fazem hoje ideia do que isso seja mas os presentes lembram-se. Porque várias vezes eu tenho feito referência a esses três dd, a partir da data em que Medeiros Ferreira me revelou a paternidade deles passei a fazer-lhe justiça associando-lhes o seu nome. Mas não sabia exactamente a história de como tinham surgido. Felizmente que ele a narra agora numa passagem eminentemente citável e que reproduzo aqui com prazer. Depois de descrever o ambiente em que vivia na Suíça, Medeiros Ferreira prossegue assim a sua narrativa:
“Foi nesse enquadramento geral que concebi a “tese” enviada para o Congresso de Aveiro que se realizou nos primeiros dias de abril de 1973, e na qual defendia a política dos três dd (descolonizar, democratizar, desenvolver) como programa de um possível pronunciamento militar a apoiar pela Oposição. A Maria Emília, sempre destemida, foi propositadamente a Aveiro observar as reacções suscitadas pela comunicação. Regressou apreensiva com o resultado. Ninguém acreditava no fundamento da minha ideia. Que estava desenraizado do país e da luta de massas. Só Jorge Sampaio achara apenas precoce a “heresia”. Quando regressei a Portugal, eram todos mais entusiastas do MFA do que eu… Devo o reconhecimento da importância política da tese enviada ao Congresso de Aveiro, primeiro a Mário Mesquita, que aproveitou a campanha eleitoral de outubro de 1973 para levar os candidatos do PS Pedro Coelho e Arons de Carvalho a referirem os três dd nos comícios, e que, dias depois do 25 de Abril, publicou na íntegra, no jornal República, a “tese”; e, em segundo lugar, ao capitão de abril, Vitor Alves, que recordou a importância daquele documento para o Movimento das Forças Armadas num depoimento dado à revista do Expresso a 7 de abril de 1984.” (p. 202)

E por que razão acho tão importante essa criação? Porque tenho dedicado muito do meu tempo ao estudo da questão da modernidade e, em particular, da modernidade em Portugal e no mundo lusófono. Tenho defendido, sem reclamar qualquer originalidade, que foi o nosso Antero de Quental quem mais lucidamente esboçou a radiografia da cultura portuguesa face ao mundo moderno e que o seu famoso ensaio, escrito a partir da sua intervenção nas Conferências do Casino – Causas da Decadência dos Povos Peninsulares – é o texto paradigmático que irá dividir as gentes do pensamento português (político e não só) em modernos e não-modernos. O paradigma moderno brilhantemente identificado e traçado por Antero é afinal o que subjaz a todo o ideário da revolução do 25 de Abril. Um dia fiz essa afirmação numa conferência na Universidade Nova e, no período de debate, um político português argumentou que, se esse texto de Antero era assim tão fundamental como eu afirmava, por que razão no Parlamento se falava sempre de Regeneração e não de Decadência? Expliquei-me então melhor: os políticos têm que prometer algo positivo, por isso não lhes convém falar de decadência. Regeneração era precisamente o passo resultante da tomada de consciência da decadência. Os três grandes erros apontados por Antero que levaram Portugal à decadência – a aventura ultramarina, o regresso ao antigo regime político-cultural autoritário absoluto e o fechar-se num modelo económico tradicional correspondem, na sua versão positiva e programática, aos três dd da revolução dos cravos: Descolonizar, Democratizar, Desenvolver.
Esse brilhante insight de Medeiros Ferreira revela a argúcia do intelectual preocupado com a intervenção política, e pode figurar como emblema da sua presença nessas duas vertentes da vida portuguesa contemporânea.
Que a “tremendous energy” que todos lhe conhecemos e o jornal Times nele identificou, quando era Ministro dos Negócios Estrangeiros, possa continuar por muito tempo a permitir-lhe intervir na vida pública deste país, tão necessitado de gente que saiba e esteja disposta a pensar por si.

Onésimo Teotónio Almeida

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Sobre o autor Onésimo Teotónio de Almeida

Natural do Pico da Pedra, S. Miguel, Açores.
É professor Catedrático, no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, da Brown University, Providence, Rhode Island, onde foi director. Faculty Fellow, do Instituto de Estudos Internacionais Watson, e professor associado de Estudos de Ciência e Tecnologia da mesma universidade.
Foi o fundador da editora Gávea-Brow e editor da revista Gávea-Brow, cronista regular em vários meios de comunicação social portuguesa.
Acumulam-se ainda incontáveis participações em conferências, colóquios e palestras, além de outras intervenções públicas, nos Estados Unidos e Europa, bem como a edição, direcção e co-direcção editorial e de teses de doutoramento e mestrado em universidades como Brown University, Universidade de Utreque, Universidade de Lisboa, Universidade de Paris.

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Nota: Credita-se a foto de José Medeiros Ferreira ao site: http://www.portugalconvida.net/pt/images/noticias/foto_Jose_Medeiros_Ferreira.



por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria F. Blayer
Tags : Canadá,E.U.A.,Brasil,Portugal,Açores

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Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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