Quinta, 27 de Novembro de 2014
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Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2012-04-26 04:14:31

O rochedo que chorou ** Luiz Antonio de Assis Brasil


foto Publiçor,2011.

O rochedo que chorou

Não é comum que um jovem diga: “A F[r]onte da Juventude: Apagas o mundo dos meus olhos / Sem remorso, limpas-me a juventude da fronte / E vês o velho que te espera desde sempre / Sujo e imundo da vida que, sem piedade / Me fincou as sementes / Nas palmas rijas e lavradas das mãos”.
Pois esse jovem de 28 anos é João Pedro Porto, poeta português, açoriano da ilha de São Miguel, mestre em Psicologia Clínica. Seu livro de estreia, de onde saiu o poema acima, chama-se O Rochedo que Chorou, publicado pela Publiçor e que [ainda] não circula no Brasil. [Aliás, bem poderíamos rever o princípio de que não se escreve resenha se o livro não está disponível no mercado; hoje em dia, com o sucesso dos blogs, das páginas no Facebook, dos downloads livres, entre outras circunstâncias, temos de pensar que a literatura está em toda parte, sem territorialidades].
Trata-se de um livro híbrido, no melhor sentido da palavra, e condiz com uma vertente importante da literatura contemporânea. Esse hibridismo é representado pela multiplicidade de gêneros: ali há poemas, reflexões [“Sou Antiquado. Acho que é a minha característica mais antiga porque, quando nasci, chorei. E isso hoje em dia está a tornar-se coisa antiquada”], contos tradicionais, minicontos e outros escritos indefiníveis, mas dotados da mesma qualidade interrogativa ante o mundo. Impressiona, também, a amplidão do universo de conhecimentos, que transita pela filosofia “existencial”, pela psicologia, pela literatura, pela mitologia [como em “A Fuga de Ítaca] e pela História. O autor move-se com facilidade entre épocas e estilos, mas sem agredir o leitor com erudições inúteis e ostentatórias; ao contrário: é uma erudição a serviço de uma leveza conceitual, que nos captura pela emoção.
Diz-se que todo escritor jovem fala de si mesmo; pode ser, mas a realidade desta cultura pós-moderna e ególatra é que também os anciãos falem apenas de si mesmos. Assim, não é pecado algum que João Pedro Porto use um “eu” persistente como o badalo de um sino. A diferença está que este “eu” só existe em ação relacional, isto é, em diálogo com o outro. Nunca é uma fala estéril ou intransitiva. Poder-se-ia dizer que é uma fala construtiva, mas sem qualquer conotação piegas ou pedagógica. Eis um escritor completo, que tem muito a ensinar à sua geração e à geração futura, inclusivamente com textos que, aproximando-se da lira romântica, subvertem-na, como “Volver: Voltarás / do fundo dos rochedos / lavrando a minha alma / De saudade e agonia // Hoje és sonho e pensamento / Ontem mar na minha face / Rebentarás forte e fria / Amanhã, / No calor do meu peito”. O jogo de oposições sonoras, as quase-rimas que mais sugerem do que dizem, fazem deste poema uma espécie de summa do eu-poético do autor, que gosta de surpreender seu leitor com esses contrastes, erigindo-os à instância de um programa estético.
João Pedro Porto. Gravem esse nome. Muito ouvirão falar dele. E falar como um escritor que vai à raiz do humano, capaz de construir uma obra duradoura, acima das circunstâncias do [seu] tempo. E essa é a marca da verdadeira obra de arte.

Luiz Antonio de Assis Brasil  (*)
 

 (*)  Natural do Rio Grande do Sul, Luiz Antônio de Assis Brasil é um dos grandes nomes da literatura brasileira e emérito  Professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Atualmente, o escritor é o Secretário de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul.
 


por: Lelia Pereira Nunes -Irene Maria F. blayer

Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada. Titular do Conselho Estadual de Cultura atuando nas Câmaras de Letras e Patrimônio Cultural.  Pertence a Academia Catarinense de Letras, Cadeira 26. Iinvestigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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